Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
Editorial

Pressão na Amazônia


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07/11/2019 às 06:44

A revogação do decreto 6.961/09, ato que libera o plantio de cana-de-açúcar na Amazônia e no Pantanal, pode ser um tiro no pé. O decreto tinha dois objetivos claros: estimular a produção de cana-de-açúcar visando a indústria sucroalcooleira e, ao mesmo tempo, proteger biomas sensíveis. Vale ressaltar que o etanol é um dos destaques do País ao fomentar mercado para um combustível ecologicamente sustentável - pois não se baseia na queima de derivados de petróleo, ou seja, bem menos poluente. Ao estabelecer o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar, impedindo a expansão do cultivo em regiões como a Amazônia e o Pantanal, o País acentuava o apelo ecológico do etanol brasileiro, que se tornou um case de sucesso e exemplo para o mundo. 

O princípio em que reside a lógica do governo é compreensível e já foi resumida diversas vezes pelo presidente, que defende a exploração da Amazônia. Ocorre que essa exploração precisa ser racional e sustentável , de modo a não estimular ainda mais o desmatamento, que já avança a passos largos apesar de todos os mecanismos existentes de proteção. A mera revogação do decreto 6.961/09 passa uma mensagem negativa para o mundo, no momento em que o País precisa mudar a imagem que ficou após a recente crise das queimadas. 

Além disso, é um ato temerário, na medida em que não estabelece novas balizas para regular o plantio de cana nessas regiões. É preciso especificar as características das áreas que poderiam ser utilizadas, dimensões e contrapartidas por parte dos produtores. A liberação pela liberação apenas coloca em risco não apenas o etanol, mas também o açúcar brasileiro no mercado internacional. Tudo que o País não precisa é de um boicote espontâneo no mercado internacional baseado na ideia, equivocada ou não, de que a cana e o etanol brasileiros estimulam o desmatamento. 

O Brasil precisa mostrar que respeita e valoriza o meio ambiente, o que não necessariamente significa manter a Amazônia sob uma redoma como um santuário intocável, mas promover o desenvolvimento ao mesmo tempo em que preserva. A proteção da floresta, o respeito aos povos tradicionais, a adoção de políticas ambientais não podem ser confundidos com bandeiras “socialistas” que, como tal, devem ser expurgadas. São fatores fundamentais que não podem ser negligenciados por qualquer nação responsável.   
 


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