Segunda-feira, 01 de Março de 2021
Editorial

Quando o clandestino tripudia a dor pública


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16/02/2021 às 08:48

As festas clandestinas tanto nos bairros populares quanto nos espaços mais sofisticados e protegidos por sistemas de segurança são a demonstração nua das condutas humanas. Numa cidade como Manaus que vive o trauma da elevada mortalidade por Covid-19 e do contexto em que essas mortes ocorreram em janeiro e estão correndo, as aglomerações, proibidas, deveriam ser vistas como postura a ser rechaçada naturalmente não só por contrariar a legislação, mas, principalmente, em respeito ao conjunto da população, dos profissionais da saúde em esgotamento e das vítimas do vírus tanto as que perderam a vida quanto as que estão doentes e lutam para viver.

 Não foram suficientes para sensibilizar a sociedade as cenas de desespero de parentes e pacientes em busca de atendimento na rede hospitalar colapsada, de transporte, e de oxigênio exibidas dia após dia em Manaus. Nem os enterros em série sensibilizaram. Enquanto a tragédia ocorria, os transgressores e os apoiadores da transgressão atuavam e atuam para favorecer desejos pessoais e negócios de poucos. Não se tratou e não se trata agora daquela transgressão libertária alimentada pela vontade da boa causa, do justo e do bom. É a que age para saciar a insensatez.

Nesse Carnaval, a expressão do desrespeito ganha feições coloridas em espaço maior, e por meio dela, os desrespeitadores levam adiante seus desejos como se estivessem acima da ordem, da lei e da ação da pandemia. Agem para aumentar o contágio e o adoecimento. São agentes da morte e zombam da dor de milhares de famílias enlutadas e daquelas com parentes em tratamento.

Especialistas têm estudado a ‘a alma humana’ para compreender desafios e apresentar respostas sobre os caminhos adversos que a psique percorre, desde a conduta instituída por acordos pela normalidade, as que ofendem os acordos e àquelas que se tornam atentatórias. Nesse marco histórico produzido pela pandemia da Covid-19, um dos indicadores apontados era o de mudança radical na conduta humana tornando-a, em geral, mais solidária e humanizada.

Há um ano de pandemia, mudanças ocorreram e algumas imagens raras puderam ser vistas, notadamente aquelas relacionadas com animais não humanos da Natureza. Entre os humanos, a desigualdade aumentou, a pobreza avança e os ricos se tornaram mais ricos. A política se apequenou e os guetos estão multiplicados. A dor pública está mais aguda enquanto as festas prosseguem.
 


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