Publicidade
Editorial

Retrato do Brasil na fila

21/05/2018 às 21:14 - Atualizado em 22/05/2018 às 02:32
Show fila

A fila dos sem-trabalho em Manaus registrada pela maioria das plataformas comunicacionais é a fotografia da realidade do drama de milhares de homens e mulheres e de suas famílias submetidos ao desemprego e subemprego. Desde sábado, uma multidão se formou em frente ao prédio da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) em busca da confirmação de inscrição no processo seletivo para pedreiros e serventes anunciado pela Prefeitura Municipal para iniciar nesta segunda-feira.

Muitas horas de espera e de expectativa de que desta vez conseguiriam vencer a primeira etapa da seleção e, por fim, garantir o trabalho com salários de R$ 969,79 (pedreiro) e R$ 954 (servente). Há duas semanas, indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontavam o avanço dos números da população subocupada e desocupada do País, com maior incidência na Região Nordeste. Nas cidades, ambas situações vem sendo agravadas e informalidade cresce. Jovens e adolescentes estão em número expressivo nos mais diferentes locais vendendo doces, sanduíches, salgadinhos e hoje já compõem uma fatia significativa dessa população.

Podem ser vistos nas entradas das escolas, nos arredores de empresas, nas esquinas das ruas e em universidades. São convocados a participar do orçamento familiar e o fazem a partir da produção e venda de uma série de produtos principalmente os alimentícios com preços que variam de R$ 0,50 a R$ 2. É dessa forma que muito deles conseguem se manter na escola e garantir despesas de locomoção, alimentação e reduzir os custos para os pais ou responsáveis muitos dos quais desempregados.

A ‘Fila da Seminf’ tem ramificações e questionamentos. Afinal, as motivações governamentais e do Congresso Nacional, avalizadas pelo judiciário, para a adoção de medidas nos últimos dois anos repetem a intenção de melhorar a vida do povo, ampliar postos de trabalho e a renda. O avanço da iniciativa privada sobre o setor público e o corte de verba de inúmeros programas foram apresentados pelo governo como única saída para estabilizar as contas do Brasil. O déficit público só aumentou, o emprego encolheu e os preços dos serviços básicos  subiram. Na maioria das famílias pobres não há registro de melhoria, ao contrário, os relatos, expostos na mídia, falam do agravamento da condição de vida e de um sentimento de angústia e de medo.