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Editorial

Serenidade na Justiça

18/09/2016 às 20:14
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Causaram polêmica as declarações do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Claudio Lamachia, quando, em entrevista ao jornal A Crítica, lançou dúvidas sobre a postura de agentes da Justiça na condução da Operação Lava Jato, tendo como fundo a recente denúncia feita contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Embora possa parecer surpreendente para alguns, é perfeitamente possível criticar certas atitudes dos membros do MP sem ser um militante de esquerda. Ao que parece, a intenção de Lamachia é que os passos de qualquer processo sejam dados sem a manifestação ou a interferência de inclinações político-partidárias.

Lamentavelmente, a sociedade continua tomada por uma dualidade extremista. Há muito tempo não se via um sentimento de sectarismo tão disseminado. Se alguém gosta do filme Aquárius, só pode ser de esquerda, se defende a investigação ampla e irrestrita de Lula, então é de direita. A posição de Lamachia não se refere a questões políticas, mas ao respeito ao devido processo legal. Vale ressaltar que o dirigente foi favorável ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Não se questiona a importância da Operação Lava, do combate à corrupção e da busca pela punição dos corruptos, independentemente de influência política ou status financeiro. A apresentação de denúncias pelo Ministério Público é um fato por si só, o acesso da imprensa às informações é assegurado de antemão.

O que o presidente da OAB critica não é a publicidade das ações, o que ele recomenda não é que se escondam os  acusados ou que sejam protegidos dos rigores da lei. O que Claudio Lamachia pondera é que a serenidade deve ser mantida em todas as etapas do processo. Quando os agentes da Justiça agem com excessos, promovendo o que Lamachia chama de “espetacularizacão”, colocam em risco a própria lisura de instituições importantes para o exercício da democracia.

Que se investiguem todos os suspeitos, que sejam punidos de acordo com a lei, que a impunidade não prevaleça, mas com a serenidade que deve ser característica da Justiça, sem agentes públicos se expondo ao ridículo, tornando-se motivo de brincadeiras nas redes sociais. Isso reduz a Lava Jato, coloca em xeque a seriedade de um trabalho fundamental para os rumos que o País tomará. Esse rumo, seja qual for, será compartilhado por todos nós, de direita, de esquerda, de cima ou de baixo. Até lá, tomara que a sociedade supere a atual dualidade e todos possam conviver pacificamente com a pluralidade de convicções.