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Editorial

Tarde demais para Gustavo

27/10/2016 às 21:23
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No mesmo dia que a família de Gustavo Silva Araújo, de apenas 7 anos, sepultava o corpo do menino - que morreu afogado após cair em um bueiro sem tampa - a Prefeitura de Manaus assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em que se compromete, perante o Ministério Público do Estado (MPE), a providenciar a vedação adequada dos 1.537 bueiros abertos  existentes em Manaus.

A atitude do poder público é necessária para evitar novos acidentes, mas chega tarde demais para as três crianças que perderam a vida só neste ano devido à omissão do órgão responsável pela correção do problema.

A assinatura tardia do TAC tem seu valor: pode evitar novos acidentes do tipo que vitimou Gustavo e outras duas crianças desde janeiro. Mas pouco significa para os moradores da rua Louro Chumbo, no bairro Monte das Oliveiras, Zona Norte, que acompanharam, consternados, o velório de Gustavo, que sofreu o acidente enquanto brincava na chuva, juntamente com outros meninos da mesma rua.

 O TAC, tampouco, aplaca a dor do autônomo Antônio José Matos, 43, que passou pela experiência terrível de encontrar o corpo do filho em meio ao lixo - após ser arrastado por sete quilômetros - em um igarapé no bairro Tarumã.

Por que foi necessário que três crianças perdessem a vida para que fossem tomadas as providências? Em muitos casos, não se trata de falta de manutenção nos bueiros. Em muitas ruas do bairro Jorge Teixeira, por exemplo, as tampas nunca existiram, e os moradores convivem com o perigo desde sempre. Crianças brincam nas ruas com toda liberdade que têm direito. Entrar no bueiro para retirar bolas e outros brinquedos faz parte da rotina. E a chuva, interrompendo o calor intenso, é um convite irresistível.

Brincar na rua, correr na chuva, deveria ser direito inalienável de toda criança. E qualquer pessoa que nunca tenha feito isso deve ter tido uma infância muito sem graça. Se crianças não têm segurança nem para brincar por falta de infraestrutura básica nas ruas, há algo de muito errado na cidade. Os responsáveis pela administração pública precisam repensar suas prioridades. A Prefeitura já havia se comprometido, em julho, após inquérito do MP e morte de duas crianças, a fechar os bueiros, mas nada foi feito. Vamos esperar que o TAC assinado ontem não fique apenas no papel.