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Editorial

Um animal da velha política

19/05/2016 às 21:53
Show eduardo cunha

O presidente afastado da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ) é daqueles políticos que provam que a reforma do sistema político brasileiro é uma necessidade urgente, urgentíssima. Durante quase sete horas de depoimento ele deu um show particular de como manobrar o regimento da comissão de ética e da própria Casa, maquiou palavras, tergiversou, invocou questões de ordem, reclamou pela ordem, saiu sem reconhecer que contas bancárias contendo milhões de dólares em saldo são dele. O máximo que admitiu foi ter sido dependente do cartão de crédito da mulher Claudia Cruz, que por sua vez está jogada na cova dos leões da 3ª Vara da Justiça Federal, em Curitiba, enquanto ele segue com foro privilegiado e, segundo consta no noticiário político, indicando alguns dos próceres do novo governo de Michel Temer (PMDB).

Numa das cenas mais absurdas do dia, Cunha disse que não há vantagem alguma em ser beneficiário de um truste na Suiça e que não caberia a ele, justamente o beneficiário, “justificar o motivo de ter enviado dinheiro, mas sim deixar claro que não possui conta  bancária no exterior, como alegam Psol e Rede na representação” sob análise do conselho de ética. Maior desfaçatez só mesmo quando disse em entrevista no ano passado que não era o dono da conta, mas sim o “usufrutuário”.

Cunha é o símbolo máximo de uma política que se baseia na esperteza, na palavra ladina e na escorregadia ética da ocasião. É claro que o julgamento político poderá levar Cunha a manter-se no poder, como ele expressou ao dizer que, possivelmente, na próxima segunda-feira já esteja novamente no comando da Câmara Federal e no posto de primeiro colocado na linha de sucessão de Michel Temer. Nessa política, neste sistema, tudo é possível!

No campo jurídico, contudo, a expertise de Eduardo Cunha talvez não logre  tanto sucesso e ele tenha de se encontrar com os seus pecados de homem público. Isso porque o banco suíço e o Banco Central brasileiro,  o Ministério Público suíço e o Ministério Público brasileiro, além do  Supremo Tribunal Federal, não parecem acreditar nos jogos de palavras do deputado e ele caminha célere para uma condenação.

 O certo é que, após comandar o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, Cunha agora está as voltas com seu próprio impeachment. Será que sobreviverá?