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Editorial

Um protesto ampliado da dor

11/10/2016 às 21:30
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A página C7 do caderno Cidades deste jornal apresenta na edição de ontem um grito. Não é o grito da família da menina desaparecida há uma semana. É nele o grito de milhares de outras famílias cujas crianças, adolescentes e jovens desaparecidos foram transformados em dor de poucos e omissão governamental.

O número de pessoas desaparecidas no Amazonas é alto e uma situação recorrente. Por que o Estado continua a lidar com uma situação grave de forma distanciada? As emissoras de TV e de rádio fazem inserções em série sobre os pedidos de apoio para localizar os desaparecidos, a maioria criança e adolescente. São filhos de famílias pobres que estão longe do alcance da presença do Estado e espalham cartolinas transformadas em cartazes pedindo socorro.

O protesto da família de Cinthya da Gama Pereira, 12 anos, contra a lentidão nas buscas é um desses atos de coragem construído na dor e no desespero. Não aceitam o silêncio e a lentidão como resposta. Ao se colocarem nas ruas, com as cartolinas, essas pessoas dão exemplo de luta e pedem solidariedade da população. Olhem as expressões nos rostos dela, das crianças, o quanto são fortes e o tamanho da dor da espera sem resposta, sem respeito governamental para com o sofrimento da família, dos amigos.

Na manifestação dessa família atingida está alguns dos problemas que afetam todos os dias a maioria dos habitantes de Manaus. A insegurança é a regra do viver na cidade, a incerteza de poder ir e vir a acompanha como outro dado. Todos os dias as pessoas, das mais diferentes idades, são atacadas, sequeladas, sequestradas, seviciadas e mortas. Quem se importa? O medo e a dor da maioria das vítimas e de seus familiares parece não contar e infelizmente estão demarcadas pelo grau de poder que cada grupo desfruta.

Não é aceitável a vida dessa maneira. Não é aceitável o silêncio oficial sobre o horror que toma conta da cidade, dos bairros, das ruas, das escolas. Não é aceitável que tantas crianças e adolescentes desapareçam sem que sejam adotadas providências capazes de efetivar garantias e promover nível de segurança a vida dessas pessoas. E muitos casos fala-se de um percurso rotineiro – ir e vir da escola.