Popular entre atletas de alta intensidade, o bicarbonato de sódio ganha espaço nas redes sociais e levanta debate sobre os limites da obsessão por energia, rendimento e alta performance
A discussão em torno do bicarbonato ajuda a revelar uma mudança importante na forma como o desempenho físico vem sendo encarado. Cada vez mais, especialistas defendem que alta performance sustentável depende de energia administrada com inteligência e não apenas de intensidade contínua. (Divulgação)
Durante anos, a busca por alta performance esteve associada a treinos intensos, rotinas exaustivas e fórmulas capazes de entregar mais energia e resistência física. Agora, um ingrediente simples e barato, presente na cozinha da maioria das casas, entrou nessa conversa: o bicarbonato de sódio. Conhecido tradicionalmente pelo uso culinário e medicinal, ele passou a circular entre corredores, ciclistas e frequentadores de academia como uma espécie de “pré-treino alternativo”.
O interesse cresceu impulsionado por vídeos nas redes sociais e por estudos científicos que investigam o potencial da substância para melhorar o desempenho em exercícios de alta intensidade. Ao mesmo tempo, especialistas alertam que a popularização acelerada do bicarbonato revela um fenômeno maior: a crescente obsessão por produtividade física, energia constante e resultados rápidos.
O bicarbonato de sódio atua como um agente alcalinizante. Na prática, ele ajuda a reduzir a acidez produzida pelo organismo durante exercícios intensos e explosivos, especialmente aqueles que exigem grande esforço em curto espaço de tempo.
Durante atividades físicas muito intensas, o corpo produz lactato e íons de hidrogênio, responsáveis pela sensação de fadiga e queimação muscular. O bicarbonato ajuda justamente a neutralizar parte dessa acidose, permitindo que o atleta sustente o esforço por mais tempo.
Os estudos mostram resultados mais consistentes em modalidades de alta intensidade e curta duração, como sprints, provas de ciclismo, natação, remo e treinos intervalados. Em exercícios longos ou de intensidade moderada, os benefícios tendem a ser menores.
Apesar disso, especialistas ressaltam que o efeito não transforma desempenho de forma radical. Em geral, os ganhos observados são discretos e dependem de fatores como dose, preparo físico, alimentação e tolerância individual.
Para o empresário Mario Rossi, a discussão sobre alta performance precisa ser menos ligada à intensidade extrema e mais voltada à consistência.
A lógica também vale para o corpo. Em vez de soluções milagrosas, especialistas defendem uma combinação de treino estruturado, alimentação equilibrada, descanso e recuperação adequada.
O problema é que a cultura da produtividade constante acabou transformando o desgaste em símbolo de sucesso. “No corporativo, o cansaço foi romantizado. Estar sempre ocupado virou status. Exaustão virou ‘prova’ de ambição. Só que isso não é alta performance, é um plano de desgaste”, afirma Cesar Cotait Kara José.
A mesma mentalidade aparece no universo fitness, onde muitas pessoas tentam operar em intensidade máxima o tempo todo, acumulando suplementos, estimulantes e rotinas excessivas na tentativa de manter rendimento constante.
Embora seja relativamente seguro em doses controladas, o bicarbonato pode provocar efeitos colaterais importantes quando usado sem orientação. Náuseas, desconforto gastrointestinal, gases, diarreia e sensação de estufamento estão entre as queixas mais comuns.
Além disso, o excesso de bicarbonato pode alterar o equilíbrio químico do organismo, especialmente em pessoas com hipertensão, problemas renais ou restrições ao consumo de sódio.
Por isso, nutricionistas esportivos e médicos reforçam que a substância não deve ser encarada como solução mágica nem utilizada de forma indiscriminada. A resposta ao bicarbonato varia bastante entre indivíduos e depende também do tipo de exercício praticado.
Mario Rossi resume essa mudança de visão ao comparar esporte e liderança: “Em provas de Trail Running, o resultado raramente pertence ao mais acelerado, mas a quem sabe administrar energia, manter ritmo e tomar boas decisões ao longo do percurso.”
No fim, o verdadeiro diferencial talvez esteja menos em encontrar novas fórmulas para acelerar o corpo e mais em aprender a preservar energia, manter constância e evitar o desgaste crônico que transforma busca por performance em exaustão permanente.