Vida e Saúde

Dormir bem, desacelerar e fazer exercícios são novos sinais de status

Dormir bem, desacelerar, investir em performance física e envelhecer com autonomia passaram a representar o novo ideal de prestígio contemporâneo

Gabriel Machado
23/05/2026 às 17:49.
Atualizado em 23/05/2026 às 17:49

Em um mundo marcado pelo cansaço crônico, excesso de estímulos e rotina acelerada, dormir bem, ter disposição, energia, equilíbrio emocional e tempo para cuidar do próprio corpo passaram a ocupar um espaço maior (Divulgação)

Durante décadas, o luxo esteve associado a símbolos visíveis de poder: bolsas de grife, carros importados, relógios exclusivos e viagens internacionais. Hoje, porém, esse imaginário começa a mudar. Em um mundo marcado pelo cansaço crônico, excesso de estímulos e rotina acelerada, dormir bem, ter disposição, energia, equilíbrio emocional e tempo para cuidar do próprio corpo passaram a ocupar um espaço antes reservado ao consumo ostensivo. Mais do que aparência, a saúde virou sinal de status.

Essa mudança de comportamento acompanha uma transformação cultural na forma como as pessoas entendem sucesso e qualidade de vida. Para a nutricionista Luana Pacheco, o que antes era ostentar bens materiais agora dá lugar a experiências e hábitos ligados ao bem-estar.

“Antigamente a ostentação era relógios, bolsas e viagens. Hoje, a ostentação do ser humano é dormir bem, envelhecer com autonomia, ter energia para treinar e ter saúde mental. O público procura mais qualidade de vida. Isso virou a riqueza do ser humano”, afirmou ao VIDA.

Para a nutricionista Luana Pacheco, o que antes era ostentar bens materiais agora dá lugar a experiências e hábitos ligados ao bem-estar;

 Nesse cenário, cresce um mercado que promete otimizar a vida: monitoramento avançado do sono, banheiras de gelo, biohacking, recovery pós-treino, suplementação personalizada e clínicas integrativas passaram a integrar a rotina de empresários, atletas e consumidores de alta renda. Mas, embora parte dessas práticas tenha respaldo científico, especialistas alertam para o risco de transformar tendências em fórmulas milagrosas.

O cardiologista Rizzieri Gomes explica que é preciso separar o que é ferramenta útil do que pode ser apenas vitrine de mercado.

“Sono consistente, alimentação de qualidade, atividade física regular, controle da pressão, colesterol e glicose continuam sendo a base não negociável. Algumas ferramentas podem ajudar, como monitoramento do sono ou suplementação, quando há necessidade real. O problema é quando surgem promessas de hackear o envelhecimento ou protocolos universais sem evidência”, pontuou.

Performance da saúde

A popularização do bem-estar também abriu espaço para um novo tipo de exibição social: a performance da saúde. Nas redes sociais, métricas de treino, alimentação impecável e rotinas hiperprodutivas passaram a funcionar como sinais de disciplina e sucesso.

Segundo Luana, o problema surge quando o autocuidado deixa de ser uma prática íntima e passa a servir como validação externa. “Existe um comportamento de performance, especialmente nas redes sociais, onde a saúde aparece associada à ideia de sucesso. O risco é transformar bem-estar em vitrine e criar uma pressão para performar uma versão idealizada de si”, alertou.

Embora medicina e tecnologia tenham ampliado as possibilidades de prevenção e qualidade de vida, a promessa de controle absoluto sobre o corpo ainda encontra limites. Genética, envelhecimento, fatores ambientais e desigualdades sociais continuam exercendo influência sobre a saúde.

“A gente consegue reduzir riscos, melhorar marcadores e envelhecer com mais qualidade, mas controlar tudo é uma ilusão. O corpo não é uma planilha. O conhecimento não gera transformação sem atitude, e não existe blindagem contra o envelhecimento”, destacou Rizzieri.

O cardiologista Rizzieri Gomes explica que é preciso separar o que é ferramenta útil do que pode ser apenas vitrine de mercado

 Outro ponto de atenção é o risco de transformar saúde em privilégio. Check-ups sofisticados, clínicas de alta performance, suplementações individualizadas e terapias regenerativas costumam ter custos elevados, o que pode aprofundar desigualdades no acesso ao cuidado. Para os especialistas, existe o perigo de criar a ideia de que apenas quem possui alto poder aquisitivo consegue envelhecer bem - algo que não necessariamente corresponde à realidade.

No fim das contas, dizem os profissionais, o caminho para uma vida mais saudável segue menos glamouroso do que as vitrines digitais sugerem. “Você não precisa de muito para envelhecer com qualidade de vida. O básico sempre deu certo: movimento, alimentação, sono e manejo do estresse. Não se trata do quanto você tem, mas do quanto está disposto a fazer dentro da sua realidade”, finalizou Rizzieri.

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