Alerta!

Temida hipóxia silenciosa pode ser responsável pela alta mortalidade de Covid-19

Desconhecida da maior parte da população, a doença vem causando temor junto à comunidade da Saúde durante a pandemia, podendo ser a causadora da sobrecarga nas UTIs

Paulo André Nunes
26/07/2020 às 17:25.
Atualizado em 10/03/2022 às 06:41

(Foto: Reprodução/Internet)

Desconhecida da maior parte da população, a hipóxia silenciosa vem causando temor junto à comunidade da Saúde durante a pandemia da covid-19. Ela se caracteriza por não dar sintomas perceptíveis – o paciente não se queixa da falta de ar, mas apresenta a queda no nível de oxigênio sanguíneo.

A experiência internacional e no Brasil mostra que pacientes com queda da oxigenação constatada precocemente pela oximetria digital podem receber tratamento não invasivo com oxigenioterapia e medicamentos que salvam vidas, levando à recuperação mais rápida e diminuição de internações nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs).

Em face dessa temática, o Instituto Estáter (IE) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) anunciaram um acordo de cooperação para atuação conjunta na primeira etapa da  campanha “alert(ar)”, que visa à conscientização sobre a importância de se medir e monitorar os níveis de saturação de oxigênio no sangue (oximetria). A iniciativa tem como objetivo apoiar o enfrentamento à pandemia da covid-19 para reduzir a mortalidade e internação em UTIs, principalmente nas comunidades mais vulneráveis e grupos de risco.

“A campanha surgiu ao constatarmos, por meio de uma base de dados e análises do Instituto Estáter, que grande parte dos óbitos por covid-19 no mundo ocorreu fora das Unidades de Terapia Intensiva. Estamos lançando a campanha “alert (ar)” exatamente para chamar atenção para os riscos da hipóxia silenciosa”, afirma Pércio de Souza, fundador do Instituto Estáter. O instituto compila desde o início da pandemia uma base de informações de mais de 20 países diretamente de fontes primárias como ministérios da saúde ou secretarias de estado. Esses dados analisados pelo IE e pela SBI mostram que a hipóxia silenciosa foi a principal responsável pela mortalidade e possivelmente pela sobrecarga das UTISs no mundo, uma vez que os pacientes ou morrem em casa ou chegam em estado avançado e precisam ser internados diretamente nas UTIs.

A hipóxia só se manifesta na pandemia quando o nível de oxigênio é muito baixo

Susam

Em face dessas questões sobre a hipóxia silenciosa a reportagem de A CRÍTICA questionou a Secretaria de Estado da Saúde (Susam) se houve alterações nas recomendações ao público de se procurar, ou não, uma unidade de saúde em face do temor da pandemia.

Por e-mail, a secretaria respondeu que segue os protocolos do Ministério da Saúde (MS) em que as pessoas com sintomas respiratórios leves ou graves devem procurar as unidades de saúde para o atendimento médico.

Campanha fará alerta

A campanha “alert(ar)” terá duas fases distintas. A primeira tem a missão de conscientização da população e de disseminar a informação de que medir o nível de oxigênio no sangue pode ser uma das medidas mais eficientes para o diagnóstico precoce de covid-19 grave.

Além de conscientizar a população, essa primeira fase da campanha visa trazer parceiros e entidades da sociedade civil para que a fase, a de implementação, ocorra de forma planejada e abrangente.

A iniciativa já reúne apoio institucional de empresas como O Boticário, Embraer, Gol, Grupo Ultra, Klabin e Banco Voiter, assim como entidades da sociedade civil organizada (terceiro setor) como a CUFA (Central Única das Favelas) e o Todos Pela Saúde, além de entidades como Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) e Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) – todas mobilizadas para apoiar institucionalmente a campanha por meio de sua difusão e, numa segunda etapa, de operacionalização do projeto. Caberá à SBI, em todo o projeto, estabelecer orientações médicas que permitam o acompanhamento seguro da oximetria nas comunidades e os parâmetros para as situações de hospitalização. O Instituto Estáter atuará no planejamento e logística necessários para a implementação do programa assim como na busca de alternativas para a implementação do plano de ação, além de realizar a análise dos dados.

Pneumologista afirma que a covid-19 faz ‘desligar’ o alerta da queda do nível de oxigênio

Diminuição do oxigênio

O pneumologista Pedro Pompeu explica que  a hipóxia é o termo que se refere à diminuição de oferta de oxigênio aos tecidos do corpo humano.

“O oxigênio é vital para o funcionamento celular. Com o chamado oxímetro de pulso, medimos a saturação de oxigênio, que quando está baixa, dizemos que há 1 hipoxemia (baixa concentração de oxigênio no sangue, que é quem carrega o oxigênio para os tecidos), com consequente hipóxia. Quando o paciente é portador de uma doença pulmonar crônica, progressiva, os níveis de oxigênio vão diminuindo progressivamente, e o paciente se acostuma com esse níveis mais baixos, muitas vezes sem apresentar falta de ar. Quando isso acontece de forma mais aguda, geralmente o paciente se queixa de falta de ar, tonturas, mal estar”, explica o especialista.

Ele destaca que o problema é que, nesta pandemia da Covid-19, esses sintomas praticamente não se manifestam até que os níveis de oxigênio estejam muito baixos. “Ou seja, essa doença parece desativar o alarme natural de que o oxigênio está caindo, por mecanismo ainda desconhecido, o que levaria a uma percepção tardia da gravidade da doença, o que acarretaria em atraso em se procurar atendimento médico”, afirma o pneumologista.

'Pneumonia silenciosa'

Ele frisa que a hipóxia não é denominada “pneumonia silenciosa”. “Hipóxia significa menos oferta de oxigênio aos tecidos, o que ocorre em várias outras situações além da pneumonia, como enfisema, fibrose pulmonar, asma grave, infecções generalizadas, doenças cárdicas e etc. Quanto ao termo ‘pneumonia silenciosa’ temos que ter cuidado com esse termo, que não é correto, pois a baixa oxigenação é apenas um dos sintomas de uma pneumonia, mas existem vários outros, muitas vezes mais precoces no curso da doença como febre, tosse com ou sem expectoração, mal estar, dor de cabeça”, explica Pedro Pompeu.

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