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Cotidiano
PREOCUPAÇÃO

Número de suicídios em São Gabriel da Cachoeira é alarmante, diz pesquisadora

Em palestra, durante a 3ª Jornada Amazonense de Psiquiatria, psicóloga revela que 67% dos indígenas do município sofrem transtornos mentais; cerca de 15% dos indígenas cometem suicídio 17/11/2017 às 21:52 - Atualizado em 18/11/2017 às 08:08
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Foto: Euzivaldo Queiroz-Arquivo/AC
Paulo André Nunes Manaus (AM)

É considerada alarmante a situação dos indígenas do Município de São Gabriel da Cachoeira (a 852 quilômetros de Manaus) em face dos suicídios e transtornos psíquicos que ocorrem naquela cidade. Cerca de 67% dos índios sofrem de depressões e transtornos na cidade do alto rio Negro.

A situação foi abordada durante a 3ª Jornada Amazonense de Psiquiatria e 8º Simpósio da Liga Acadêmica de Psiquiatria do Estado do Amazonas, que encerrou ontem, no auditório da Escola Superior de Ciências da Saúde da Universidade do Estado do Amazonas (ESA/UEA).

“A psiquiatria ainda não entrou em São Gabriel. Há suicídios quase todos os dias e durante essa entrevista, nesse momento, pode haver índios das etnias baré e tucano que estejam tirando a sua vida”, comentou a psicóloga Naira Marques, que durante os anos de 2015 e 2016   trabalhou no Conselho da Criança e Adolescente em um trabalho feito em parceria com a Polícia Federal dentro da Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente, em São Gabriel da Cachoeira.

“Durante o período em que estive no município fiz algumas pesquisas e convivi com alguns dos problemas dos índios. O que não é visto pelo branco é que os índios têm os mesmos problemas psicológicos do próprio branco. E esse número de problemas aumenta porque os índios não sabem lidar com depressão, síndrome do pânico, bipolaridade, isso tudo”, destaca a doutora.

Em uma das abordagens feitas pela psicóloga, ela encontrou uma família da etnia baré em que todos os membros eram esquizofrênicos. “Eles não veem isso como um problema psíquico, e sim de Deus, ou de outros seres de outros planetas”.

Dados preocupantes

Na descrição sobre a situação dos suicídios indígenas em São Gabriel da Cachoeira, ela comentou que o índice de 67% para depressão e transtornos, revelado pelas estatísticas de 2009 do IBGE e Fiocruz, é muito grande, bem como o que revela que 15% da população indígena tira a própria vida. “O índice é muito alto na maioria das 23 etnias. A depressão vem pelo alcoolismo, e atinge jovens, crianças e senhoras de 60 e 70 anos”, conta a especialista.

A psicóloga Naira Marques informou que, há alguns dias, ocorreram quatro suicídios, sendo dois por dia, em São Gabriel. Ontem, na palestra sobre a vivência na cidade, a especialista teve o apoio de duas indígenas que falaram sobre suicídios ocorridos com parentes e amigas.

Transtornos psíquicos tratados

O tema da 3ª  Jornada Amazonense de Psiquiatria e do 8º Simpósio da Liga Acadêmica de Psiquiatria do Estado do Amazonas foi “A Psiquiatria no Cenário Amazonense”.

Ontem pela manhã, o  psiquiatra Maurício Hayasida falou sobre a “Psiquiatria e Terapia Cognitiva”. “Abordamos sobre transtornos de ansiedade e fobia social e terapia cognitiva. Os transtornos de ansiedade generalizada atingem 3% da população e geralmente vem associadas a outros transtornos psiquiátricos, que se chama de comorbidade. A depressão, pânico geralmente estão associados a transtorno de ansiedade. E vice e versa”, informou ele.

Em termos de número de frequência, o transtorno de ansiedade atinge 3% da população, com a fobia social alcançando 8%. A depressão atinge de 15% a 20% das pessoas. De cada cinco mulheres, uma pode ter depressão. Em homens, de sete deles um pode ter isso. “São em termos gerais, mas específico, aqui para o Amazonas, não há números”, disse Hayasida.

Sem programa

Segundo a psicóloga Naira Marques, a cidade de São Gabriel da Cachoeira “deveria ter um programa de saúde mental indígena mais minucioso e específico, com demanda de 24 horas. Não existe esse programa: o Dsei trabalha só com a saúde sobre malária e dentário”, diz ela.