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Amazonenses celebram aprovação em edital do Itaú

Ateliê 23, Grupo Jurubebas de Teatro e Keila Sankofa superaram cerca de 9 mil inscritos do Brasil pela oportunidade de viabilizar seus projetos

Publicado em 15/05/2024 às 16h16
Amazonenses celebram aprovação em edital do Itaú
Foto: Cesar Nogueira

Três amazonenses compõem a lista dos 100 selecionados pelo edital Rumos Itaú Cultural 2024, que contemplou projetos com temáticas LGBTQIA+; questões raciais negras e indígenas; e cultura periférica. O Grupo Jurubebas de Teatro, Ateliê 23 e Keila Sankofa superaram aproximadamente 9 mil inscritos pela oportunidade de viabilizar suas produções, ajudando a difundir conhecimento sobre arte e cultura no País.

Pelo grupo Jurubebas, o projeto aprovado pelo edital se chama “Na Toca do Gambá”, uma pesquisa sobre o ritmo afro amazônico do Gambá de Borba, resultando na criação de um espetáculo musical.


“É um ritmo presente na região do Rio Madeira e fruto do encontro dos ritmos do trocano [instrumento de percussão], dos indígenas Mura, com o tambor tocado pelos cabanos que fugiam dos soldados imperiais no período da cabanagem”, revela o diretor teatral Felipe Maya Jatobá.

De acordo com ele, pouco se tem de registro documental sobre o ritmo – logo, a pesquisa será realizada toda ‘in loco’. “Visitaremos a comunidade quilombola do Acari, em Borba, e junto a eles criaremos o espetáculo musical com músicas 100% amazonenses”, acrescenta.


Essa foi a primeira vez que o Grupo Jurubebas se inscreveu em uma seleção da magnitude do Rumos Itaú Cultural, o que faz com que os artistas se sintam ainda mais motivados. “O fato de ser um edital voltado para a pesquisa cênica e criativa nos fez ver a possibilidade de ir até os gambazeiros [nome dos tocadores do Gambá] e, com eles, aprender sobre a musicalidade, a dança e a encenação ritmo. Um projeto desse tamanho só seria possível com tal aporte financeiro”, frisa Felipe.


Aos artistas locais que cogitam se inscrever no Rumos ou, ainda, em algum outro edital nacional, o diretor teatral aconselha: “Acreditem nos seus projetos! Todo projeto nasceu de uma ideia e, para essa ideia se tornar real, precisa estar com um forte embasamento teórico, criativo e técnico. Acho fundamental pesquisar sobre a instituição patrocinadora, sobre os contemplados em edições anteriores e avaliar se seu projeto cabe naquele certame. Um bom projeto é fruto de estudo, pesquisa e curiosidade. Afinal, um avaliador quer saber qual o seu diferencial”.


Segundo Felipe, quanto mais artistas nortistas estiverem presentes nessas seleções, mais recurso também será destinado às vozes do Norte.


Homofobia

O grupo Ateliê 23 foi selecionado com o espetáculo de teatro musical “Sebastião”, que fala sobre homofobia e deverá estrear até setembro deste ano. “Ele é um trabalho que fala sobre homofobia e como a religião cristã tem tratado os corpos gays, que também têm direito de professar a fé”, adianta Taciano Soares, diretor da companhia.


A motivação para a produção surgiu após o lançamento do videoclipe “Glowria”, que sofreu com uma manifestação nacional contrária no YouTube. “O desejo desse musical nasce a partir de uma reação dos fiéis de uma igreja de Manaus. Quando lançamos [o clipe], recebemos muita rejeição e ódio, com falas violentas e ameaças de morte”, completou.


Apesar de já terem se inscrito no Rumos Itaú Cultural, essa é a primeira vez que o Ateliê 23 teve um projeto selecionado. Para Taciano, o segredo para a aprovação está no aprimoramento técnico e na persistência.


“O mais importante é a formação, é você ter uma especialização. Esses editais obrigam ao que a gente chama de profissionalização da cultura, que é entender que a função do produtor cultural ou do captador de recursos não é algo feito sem conhecimento técnico, mas o contrário”, finalizou o diretor.


Artes visuais

Contemplada no segmento de Arte Visual, Keila Sankofa foi selecionada com o projeto “Óculos de Okotô”, composto de um ensaio fotográfico e um óculos feito de búzios que já desenvolve desde 2021, após participação em uma residência da Oi Futuro – Amplify.


“Em 2023/2024, percebi a urgência dessa narrativa, compreendi que deveria ampliar esse trabalho e procurava alguma estrutura. O edital foi essa oportunidade”, contou a artista visual e realizadora audiovisual.


Em “Óculos de Okotô”, Keila se retrata como um ser ancestral-futurista, sendo seu corpo a ponte de conexão entre seres, divindades, matas, terra e céu. “Esse é um edital que visualiza a produção intelectual e artística de forma mais ampla. Meu trabalho é multidisciplinar e eles compreenderam a potência. Vi a oportunidade de mandar a pesquisa por completo”, disse.

Agora, antes de botar a mão na massa, a artista visual vai comemorar a seleção pelo Rumos. “A vitória de uma pessoa negra de periferia deve ser sempre celebrada. Mudei minha realidade social a partir do poder de criar outros mundos, preciso festejar”, finaliza Keila.