Luta eterna contra a inflação
A manutenção dos juros altos é a principal arma dos governos para tentar frear a inflação, que avançou com força em vários países após a crise sanitária.
A ata do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), divulgada ontem, informa que a autoridade monetária tem a intenção de manter o ritmo de corte nos juros em 0,5% nas próximas reuniões. É menos do que gostaria o governo federal, mas está de acordo com as expectativas do mercado, além de contar com apoio quase unânime de especialistas. A ata externou preocupações com o panorama da inflação e avalia que uma intensificação no ritmo de cortes nos juros é improvável. Vale ressaltar: a manutenção dos juros altos é a principal arma dos governos para tentar frear a inflação, que avançou com força em vários países após a crise sanitária.
A boa notícia é que, pelo terceiro mês seguido, o País experimenta o fenômeno da deflação, quando a média geral de preços ao consumidor recua. Um sinal relevante de que o movimento de alta dos preços perde força. É claro que se trata de um dos mecanismos econômicos dos mais complexos, que atinge de forma diferente as diversas categorias de produtos. Apesar de tão demonizada, a inflação é tão natural quanto o ato de comprar ou vender, e surgiu no mesmo momento que o primeiro produto foi efetivamente vendido, o que pressupõe o uso de alguma moeda.
A ojeriza que paira sobre a inflação, sob a ótica dos brasileiros é perfeitamente compreensível, considerando os tempos não tão distantes em que o País enfrentou a chamada hiperinflação. Trata-se da escalada descontrolada dos preços, de tal forma que a desvalorização da moeda ultrapassa 50% ao mês. É como receber R$ 100 e fazer compras, mas perceber que só consegue comprar metade do que comprava no mês anterior com os mesmos R$ 100. O Brasil já viveu essa situação tenebrosa nos anos da década de 1980 e só conseguiu escapar da “espiral inflacionária” em meados da década de 1990, com o advento do Plano Real, um dos únicos planos econômicos da história do Brasil que deu certo.
Obviamente, o cenário atual nem se aproxima daquela situação extrema. Mas a inflação está aí, sempre rondando e pronta para atacar. Bastam alguns deslizes financeiros para que o dragão acorde com fome insaciável. Já acordou na Argentina, onde a taxa ultrapassa 124% ao ano e liga o sinal amarelo em todas as economias emergentes. O Copom optou pela cautela.