Manaus qui, 22 out
A Crítica
Opinião

Falta disposição para dialogar

Publicado em 22/01/2019 às 12h25 · Atualizado em 13/03/2022 às 20h50
Falta disposição para dialogar

As manifestações indígenas tendem a tomar conta do País, com adesão de várias organizações e governos internacionais diante das decisões e declarações que sucessivamente estão sendo feitas por integrantes do governo federal. Duas questões estão colocadas: a equipe governamental quer de fato endurecer na tomada de decisão em relação aos povos indígenas ou medir forças para saber o tamanho do espaço que terá a fim de realizar as mudanças que pretende.

O que ocorreu no Maranhão, na semana passada, expõe o tamanho da confusão em que o governo federal decidiu se envolver. Quando fazendeiros, madeireiros retomam área, por conta própria e não por decisão da Justiça, onde vivem indígenas que receberam o direito de nelas viverem, está às declarações de autoridades governamentais que incentivam esse tipo de conduta. Daí é um passo para confrontos que poderão transformar o País em um cenário de guerra e produzir muitas mortes.

O ato de colocar a Fundação Nacional do Índio (Funai) sob as deliberações do Ministério da Agricultura é mais um gesto provocador considerando quais são os interesses fundamentais desse ministério e como esses interesses conflitam diretamente com aqueles dos povos indígenas e quilombolas.  Que o governo tenha, na sua estrutura, a divergência é natural e salutar, o que não deveria ocorrer é a submissão de uma área, como a que trata das questões dos povos indígenas e tradicionais, a outra que atua em antagonismo a essa. Ao insistir nessa postura, o governo faz uma declaração de guerra quando poderia ou deveria agir de forma mais reflexiva e ponderada até mesmo pela necessidade que tem e terá em dialogar internacionalmente.

A manifestação dos indígenas no domingo, em Manaus, a segunda em menos de um mês, os atos ocorridos em outras cidades, demonstram que os povos indígenas estão dispostos à luta até a última consequência para assegurar seus direitos e suas terras demarcadas. O Brasil não deveria retroceder e sim avançar nessa área porque tem dívida histórica com os indígenas. Quando o discurso de que os indígenas impedem o desenvolvimento do País ganha força no interior do governo é porque o entendimento de que é possível compatibilizar desenvolvimento e sustentabilidade – o que inclui as formas de vida dos povos indígenas – foi substituído pelo que se realiza na exploração total da terra, da água, da floresta, do subsolo. Esse modelo tem dado lucro a poucos grupos de empresários e ampliado a miséria entre as populações.