Destruição avança na floresta
Em maio, a Amazônia perdeu para o desmatamento o equivalente a quase duas vezes a área urbana da cidade de Manaus. Foram desmatados 829 km², um número recorde, o maior desflorestamento já registrado em um único mês desde que o sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), começou a fazer esse monitoramento. Os desmatadores não entraram em quarentena, pelo contrário, aproveitaram o afrouxamento na fiscalização causado pela pandemia do novo coronavírus para intensificar a ação destruidora.
É preciso ação para barrar o avanço da destruição na floresta, o que demanda maior coordenação por parte do governo federal, que até tem agido – militares foram enviados à região para combater diretamente a exploração ilegal de madeira em maio – o que contrasta com a postura vista no ano passado, quando o governo só abandonou a inércia após muita pressão internacional. Neste ano, porém, apesar de ter agido com antecedência, o esforço não foi capaz de reduzir a derrubada da cobertura vegetal. A destruição da floresta aumentou 12% em maio, em comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo dados oficiais do Inpe. Os números mostram que a abordagem federal – baseada na ação de militares na região – é um modelo que precisa ser revisto.
Minimizar o problema, quase uma praxe do atual governo diante de crises, é outra abordagem que deve ser evitada. Na pasta ambiental há um problema sério de comando e coordenação já que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é visto por muitos como um antiministro. Nos próximos meses, enquanto o desmatamento dará lugar à outra face da tragédia – as queimadas – Salles provavelmente estará muito ocupado defendendo-se das acusações que pesam contra ele. O Ministério Público de São Paulo apura indícios de enriquecimento ilícito por parte do ministro.
Diante desses ingredientes, o cenário que se avizinha para a Amazônia em 2020 dá pistas de que será ainda mais grotesto que no ano passado, quando imagens da floresta incendiada causaram comoção mundial, prejudicando seriamente a imagem do País, sem falar no dano ambiental incalculável, com ameaça à sobrevivência de espécies de animais e vegetais endêmicas em diversas áreas desmatadas. O Brasil precisa abrir os olhos enquanto há tempo.