Líderes religiosos ignoram os riscos
A disposição de líderes religiosos em retomar, neste momento, os cultos demonstra o quanto a ideia de Deus pode ser vinculada as mais diferentes propostas e interesses. Esse não é um movimento novo, mesmo a leitura mais rápida pode demonstrar as disputas políticas em torno de Deus envolvendo guerras e mortes.
A reabertura das igrejas no Brasil da pandemia em elevada e escala, como desejam alguns pastores e sacerdotes, não é exatamente na defesa do legado divino e da conexão dos fiéis, a pressão realizada também exprime a outra feição de parte das igrejas, os negócios da fé. Política e economia entram em cena numa área que, supostamente, está afeita ao acolhimento, à escuta daquilo que faz as pessoas sofrerem e a participação popular nos rituais religiosos.
Não se aplica, se não por outras razões, a tentativa de legitimar a abertura dos templos para as atividades com os públicos. Nenhum indicador advindo do serviço de monitoramento da Covid-19 possibilita ao Brasil facilitar as aglomerações e reduzir o distanciamento social. O mapa diariamente publicado expõe recorde de mortes enquanto infectologistas alertam para a terceira onda do vírus.
Pastores e sacerdotes quando se lançam ao movimento pela reabertura erram e explicitam quais são suas prioridades. Não é salvaguarda a população, não é ser parte das inciativas de suporte aos protocolos sanitários e sim o é pelo egoísmo, individualismo e por entenderem a igreja como empresa. É, no mínimo, lamentável que autoridades da igreja se articulem politicamente para tentar assegurar a reabertura desses locais já.
O esperado seria a presença das forças pastorais na rede de apoio aos que foram e são vítimas da pandemia. A maioria ficou em silêncio, apenas uns poucos saíram em defesa do atendimento das necessidades básicas em saúde e alimentação de milhares de brasileiros praticantes de diferentes credos. Nem mesmo no episódio da aquisição de vacinas e da distribuição dos lotes quiseram se envolver, emudeceram e não foi em nome de Deus.
É triste que o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha que decidir sobre uma pauta dessa natureza. Mas, tornou-se necessário reafirmar que o país vive em larga escala a pandemia da Covid-19 e que cuidados precisam ser tomados como regra geral. Ao mesmo tempo, diante de determinadas iniciativas atentatórias, é fundamental que a Suprema Corte se posicione. Este é o rito.