Vidas transformadas pelas ondas sonoras
No Dia Mundial do Rádio, radialistas da Rede Calderaro revelam os bastidores da profissão
Nessa sexta-feira, 13 de fevereiro, o mundo inteiro celebrou o Dia do Rádio, data instituída em 2011 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Desde o seu surgimento até os dias atuais, ele passou por muitas transformações, mas o que nunca mudou (e há defesa de que jamais mudará) é seu papel junto aos ouvintes.
“Ele chegou comigo para conversar e falou assim: quero te agradecer porque eu te acompanho todos os dias e em um período da minha vida que eu estava passando por uma depressão muito grande e pensando em tirar minha vida foi a tua alegria que me transmitiu alegria”.
Esse é o relato ouvido pelo radialista Rafael Cunha, da FM O Dia (93,1), de quando foi abordado por um ouvinte durante uma transmissão. Ele representa o que existe de mais importante entre quem ouve e quem fala. Ela é o conceito mais claro e direto do que é o rádio e como ele funciona. Cunha explicou que ficou surpreso quando o homem chegou porque ele não fazia ideia de quem era, mas logo depois se tornou um dos momentos mais marcantes da vida dele.

Radialista Rafael Cunha acumula 19 anos de atuação no mercado e relembra que tudo começou por causa de um castigo em uma escola da Compensa, na zona Oeste de Manaus (Foto: Jeiza Russo)
“Você ouve de uma pessoa que você nunca viu na sua vida algo assim, não há pagamento maior no mundo para quem é comunicador e isso é algo que me emociona muito quando eu falo”, comentou.
Essa relação íntima é reforçada pelo também radialista e coordenador da Jovem Pan Manaus FM (104,1), Orlando Filho. Para ele, o papel do profissional é, essencialmente, o de transmitir alegria além das informações. Ele explica que o estúdio de rádio é como se fosse um local sagrado de uma religião onde você, ao entrar, precisa deixar todos os seus problemas pessoais para o lado de fora porque do “do outro lado da linha” existem alguém que precisa desse ânimo.
“A minha maior alegria é poder acordar e passar toda a minha felicidade para quem está no trabalho, para quem está no carro. Isso faz muita diferença; o que a gente bate muito na tecla aqui é a programação musical. Todo mundo tem problema, mas a música faz diferença na sua vida”, disse Orlando.
Gente como a gente
Agora é preciso deixar de lado toda a série de técnicas de dicção, regras de comunicação e conceitos do ofício por um momento e focar em uma das características que justificam esse contato entre as duas partes: a humanidade. O ouvinte se sente abraçado pelo radialista porque, de acordo com os comunicadores, ele enxerga verdade nas palavras, no tom da voz e na identidade criada.
A classe defende que existe uma paixão forte pelo dia a dia do trabalho, que muito do que se comenta no ar vem das experiências de vida acumuladas até aqui. O interessante é observar que quem está na rádio hoje também foi um ouvinte no passado e entender como esse amor começou permite que haja a compreensão do porquê quem está do outro lado do transmissor se vê abraçado.
Três décadas de comunicação
Orlando Filho, por exemplo, acumula 35 anos de comunicação, mas era um jovem tão tímido durante os primeiros anos de vida, no Rio de Janeiro, que tinha vergonha de ler os artigos da faculdade de direito na frente da turma.
Para vencer a timidez, se inscreveu em um curso de locução e não apenas ficou mais “solto” como aprendeu com Luiz de Holanda Bocão (a voz da Rede Globo, junto com Dirceu Rabelo) a arte do rádio. Depois de formado, recebeu convite de amigos para fazer testes em rádios de Manaus e já na década de 90 passou a atuar na capital do Amazonas até ser convidado para fazer parte da Rede Calderaro de Comunicação (RCC).
“Recebi o convite de um gerente da Rádio A Crítica, a Jovem Pan na época, e é claro que eu não pensei duas vezes, aceitei de imediato e estou até hoje. Depois tive um convite que ficou marcado na minha história, o nosso presidente Dissica Calderaro fez o convite para assumir a coordenação da rádio e estou até hoje muito feliz com a família aqui”, comentou.
Identidade
FM O Dia e Jovem Pan fazem parte da mesma casa, na Rede Calderaro de Comunicação (RCC), mas são programados para públicos diferentes e isso está relacionado aos tipos de ouvinte que tem na cidade. De um lado a 93,1 traz bastante da identidade do Rio de Janeiro com a mescla musical do Amazonas. As ações de eventos, festas e o Camarote da Alegria compõe esse tipo de “ritmo mais quente”.
Do outro lado temos a 104,1 que tem a programação de São Paulo como rede e o “tempero” amazonense misturado no padrão presado pelos paulistas. Em 2025, o lado mais político do conteúdo ganhou intensidade e espaço entre os ouvintes também por meio da tv da emissora de rádio. E, claro, sem deixar de lado a vertente musical.
As previsões para este ano são de crescimento e isso dentro da “nova” realidade das rádios. Hoje é o comum que haja live das transmissões diárias porque a rede social vem se consolidando entre os principais canais de comunicação mundialmente.
Na FM O Dia, o Carnaval é só o começo do calendário. Logo mais são os ensaios dos bumbás Garantido e Caprichoso, que vão ganhar o foco das ações de externa. Na Jovem Pan, o ano de eleições deve pautar muito espaço ne programação com o diferencial de uma cobertura pensada especialmente para seu público.
Paixão pelo rádio
Rafael Cunha acumula 19 anos de atuação no mercado e relembra que tudo começou por causa de um castigo em uma escola da Compensa, na zona Oeste de Manaus. Ele e colegas de turma estavam “em um momento de bagunça” com a turma quando foram pegos pelo inspetor.
A punição era ler orações no sistema de avisos da unidade de ensino. Ali, ele se apaixonou, mesmo sem saber ligar o microfone no começo de tudo. Dali ele passou a implantar esse mesmo sistema em outras escolas por onde estudava, durante o intervalo entre as aulas. A paixão foi tanta que ele mandou fazer uma camisa da Rádio A Crítica e ia para as transmissões para se sentir parte da emissora que ouvia; até que recebeu o convite para o teste… e passou.
“Ganhei meus primeiros programas com o Domingueira e o Roda de Samba, como o chefe sempre teve muita visão, viu que deu retorno comercialmente e me disse que eu estava pequeno para o fim de semana, disse: ‘tu vai para o segunda a sexta agora’, e graças a Deus a gente está aí até hoje”, lembrou.