Ação de narcotraficantes no Rio de Janeiro é alerta nacional
Há uma sofisticada rede do crime em atividade e operacionalizando instâncias diversificadas. Os governos sabem disso — e, se ignoram o que estudos acadêmicos sérios revelam nessa área, o fazem por razões outras.
As cenas compartilhadas com a sociedade global de um Rio de Janeiro sob horas de desespero na terça-feira (28) não são fatos isolados e sim parte de uma realidade comum de muitas cidades brasileiras.
De um lado, o avanço das organizações de narcotraficantes cada vez mais detentoras de poder, de aparatos tecnológico e bélico, de recursos financeiros elevados. De outro, a falta de competência do Estado em lidar com tais organizações, numa sucessão de erros e da prepotência de autoridades públicas.
Entre operações desastrosas e ataques dos grupos narcotraficantes, está a população. A maior parcela dela, vítima das duas ações, é submetida cotidianamente a situações de agonia, pavor e de perdas.
Entre os mortos em ocasiões como a vivida na capital carioca, a primeira informação é de que os mortos são membros de grupos criminosos e, posteriormente, investigações mais cuidadosas mostram que inocentes pagaram com a vida. Ficará para seus familiares e amigos fazer a defesa de suas biografias e restabelecer a verdade.
O avanço tecnológico e o acesso a experiências bem-sucedidas podem, juntos, ajudar na elaboração e no desenvolvimento de ações de enfrentamento e combate às cadeias que comandam o narcotráfico no Brasil. Para esse alcance, algumas etapas precisam ser observadas, como a permanente qualificação de agentes do aparato policial, a construção de sistemas de garantia no uso de informações restritas e estratégicas nesse tipo de ação e a determinação política do agir em parcerias fundamentais. Não pode ser por ato isolado e pela vaidade política.
A condição das cidades é de refém dessas organizações criminosas cujos braços tornam-se longos e ganham representação em diferentes espaços de poder. Há uma sofisticada rede do crime em atividade e operacionalizando instâncias diversificadas. Os governos sabem disso — e, se ignoram o que estudos acadêmicos sérios revelam nessa área, o fazem por razões outras.
Dados da pesquisa feita pelo Amazon Underworld indicam que 662 municípios amazônicos, de um universo de 987 englobando a Pan-Amazônia (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela), enfrentam a presença de facções criminosas e de grupos armados, o que corresponde a 67% dos municípios da região.
O estudo, divulgado em 21 de outubro, tem como título “Amazônia sob ataque: mapeando o crime na maior floresta tropical do mundo”, e é mais um mecanismo a mostrar a gravidade e a urgência de priorizar a questão.