Respostas tímidas à crise de saúde mental
O Amazonas registrou aumento de 83% no número de afastamentos do trabalho por questões de saúde mental em 2024 na comparação com o ano anterior.
*Por Carlos Assis, psicólogo clínico e editor do Anuário Saúde Mental nas Empresas. É fundador do Instituto Philos Org.
O Amazonas registrou aumento de 83% no número de afastamentos do trabalho por questões de saúde mental em 2024 na comparação com o ano anterior. Foi a segunda maior variação entre as unidades da federação, ficando atrás apenas do Maranhão. Em 2024, foram concedidas mais de 2,7 mil licenças médicas a trabalhadores amazonenses.
Os dados são do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho e resultam em perda de produtividade, aumento de custos para as empresas e para o sistema de saúde, além da redução da capacidade de inovação da economia. A depressão e a ansiedade levam à perda de 12 bilhões de dias de trabalho, gerando um impacto econômico global de quase um trilhão de dólares, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Apesar da gravidade, a resposta institucional no Brasil tem sido insuficiente. A Lei nº 14.831/2024 que criou o Certificado de Empresa Promotora da Saúde Mental, até hoje não foi regulamentada e segue sem efeito prático. Já a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), atualizada para incluir riscos psicossociais na política de saúde e segurança do trabalho, teve sua entrada em vigor adiada para 2026. O recado transmitido foi claro: apesar dos números alarmantes, o tema não é tratado como prioridade.
Nesse contexto, os dados do Anuário Saúde Mental nas Empresas 2025, divulgado no Dia Mundial da Saúde Mental (10 de outubro), ajudam a dimensionar a distância entre discurso e prática. O índice geral de promoção da saúde mental pelas grandes companhias no Brasil passou de 5,05 pontos, em 2024, para 8,19 neste ano. O crescimento foi puxado pelos resultados de um pequeno grupo de empresas que, efetivamente, transformam discurso em ações concretas. No entanto, em um ranking cuja pontuação máxima é 16, isso mostra que estamos muito aquém do ideal.
Estudos demonstram o impacto positivo dos investimentos em saúde mental. Análises da McKinsey apontam retorno de até 4 vezes para cada dólar investido. Mas se investir em saúde mental vale a pena, devemos entender por que ainda predomina a hesitação em ampliar ações de promoção do bem-estar. A escuta verdadeira dos colaboradores exige coragem das lideranças, que passam a lidar com a subjetividade em um mundo guiado pela objetividade. Quando se abre esse espaço, não basta coletar informações: é necessário agir a partir delas e falta a vontade política de colocar a cultura no centro e encarar o tema com seriedade.
O Brasil não precisa apenas de novas leis ou normas, mas de regulamentações eficazes, fiscalização ativa e, sobretudo, lideranças dispostas a enxergar que saúde mental não é custo, e sim investimento estratégico.