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A Crítica
Meio Ambiente

Microplásticos avançam na Amazônia e já ameaçam fauna, rios e comunidades ribeirinhas

Estudo da Fiocruz e do Instituto Mamirauá revela contaminação generalizada e alerta para riscos à saúde humana

Publicado em 04/10/2025 às 08h57
Microplásticos avançam na Amazônia e já ameaçam fauna, rios e comunidades ribeirinhas
Foto: Paulo Bindá

O lixo plástico está há tanto tempo na nossa rotina que às vezes passa batido, mas basta um olhar um pouco mais atento para perceber que sempre tem uma sacola, copo descartável ou garrafa PET jogados por aí. Não é por menos que o Brasil figura entre os 10 países que mais produzem resíduos plásticos no mundo, segundo um levantamento da Universidade de Leeds, na Inglaterra, gerando 1,4 milhão de toneladas por ano, o oitavo maior patamar no ranking.

O problema não é apenas gerar grandes quantidades de um material que leva de 400 a até 1000 anos para se decompor naturalmente, mas principalmente não ter controle algum de onde esse lixo vai parar. De alguns anos para cá, os cientistas perceberam que ele está chegando até a região amazônica de forma silenciosa, são os microplásticos, porções tão pequenas que são invisíveis ao olho nu.

Um estudo coordenado pela Fiocruz e o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá analisou e sintetizou as principais pesquisas científicas sobre o tema e emitiu um alerta sobre a extensa e preocupante contaminação na Amazônia.

O coordenador do levantamento, Jesem Orellana, explicou que os resíduos se espalham de diversas formas, incluisve pelo ar. Por isso eles já foram detectados no solo, nas plantas, árvores e até nos animais.

“Estamos falando de uma substância, de um poluente, que está presente em todos os ambientes. Temos poucos exemplos na natureza em que você tem um poluente ambiental altamente disseminado em flora, fauna, água, solo e ar”, comentou.

Riscos para ribeirinhos e fauna

Entre os vários ambientes contaminados os rios chamam ainda mais atenção, A Universidade Federal do Pará (UFPA) mostrou que, regionalmente, 66% dos ninhos de um pássaro chamado Japu já são construídos por fibras e cordas plásticas. A estimativa da UFPA é que 182 mil toneladas de resíduos plásticos sejam derramados nos rios amazônicos por ano. Mas além do impacto negativo no dia a dia dos animais, ele também representa um risco para a saúde humana. É o que diz o Instituto Mamirauá.

“Afeta as comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas porque eles consomem a água do rio, os peixes do rio. Pode ser um problema para a amazoônia inteira”, Afirmou o pesquisador do instituto, Daniel Tregidgo.

Problema Global e ação conjunta

Jesem Orellana foi claro ao destacar que esse cenário é resultado da falta de ações mais eficazes de vários países. Lidar com os resíduos sólidos é uma dificuldade sentida pelos governos de todo o mundo, mas são nas fronteiras que elas se acentuam. No caso do Brasil, da região amazônica, por exemplo, há muito lixo que vem dos países vizinhos, como Colômbia e Peru. Não adianta que apenas um dos envolvidos mude a forma como descarta e direciona o plástico.

O estudo foi lançado perto da realização da COP 30, marcada para novembro, em Belém (PA), para chamar a atenção dos países envolvidos na reunião. A proposta é que possam acelerar o acordo para o primeiro tratado global contra a poluição plástica. Essa é uma discussão entre 179 nações atualizada entre os dias 5 e 14 de agosto deste ano.

“Já temos estudos realizados fora do Brasil mostrando a presença de microplásticos em tecido cardíaco e associando isso à doenças, mostrando a presença em leite materno. O cenário demanda uma ação conjunta, coordenada, entre diferentes atores, organismos internacionais; é um problema da humanidade”, comentou Orellana.

Riscos 

A ciência ainda não conseguiu listar efetivamente quais são os riscos causados pelo consumo de água ou peixes contaminados por micro ou nanoplásticos, mas a nutróloga Bruna D’Ávila explicou que esse tipo de ingestão pode vir acompanhada de metais pesados e sobre isso já se tem um conceito mais bem definido pela comunidade científica.

“A gente sabe que eles agregam também essas outras substâncias que acabam trazendo alteração de metabolismo, inflamação crônica, alteração hormonal, talvez esteja relacionado com desenvolvimento maior de distúrbio cognitivo nas pessoas com mais idade”, explicou.


Nutróloga Bruna D’Ávila explicou que esse tipo de ingestão pode vir acompanhada de metais pesados (Foto: Paulo Bindá)