Amazonenses contam como é viver nos EUA na era Trump
Manauaras que vivem nos EUA relatam a rotina, incertezas e inseguranças após a posse de Donald Trump
O retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos trouxe à tona uma série de expectativas e preocupações entre os imigrantes brasileiros, especialmente aqueles que deixaram o Amazonas em busca de oportunidades. A reportagem de A CRÍTICA ouviu esses amazonenses, que compartilharam suas experiências e opiniões sobre a vida na “Terra do Tio Sam”, os desafios enfrentados como imigrantes e as incertezas políticas que permeiam o cenário atual.
Mesmo sendo um pequeno recorte, cada entrevistado trouxe uma perspectiva única sobre o que significa viver longe de casa, as dificuldades que encontram e como as decisões do governo impactam suas vidas e as de outros imigrantes.
A farmacêutica especialista em vigilância sanitária, que preferiu não se identificar, deixou Manaus há um ano em busca de melhores oportunidades na pesquisa científica. Com um visto de trabalho temporário, ela encontrou um ambiente que, segundo suas palavras, “é o país que mais investe em pesquisa”, o que a motivou a se mudar. No entanto, essa mudança não foi isenta de desafios.
“Apesar de eu ter vindo com contrato, ainda assim foi complicado me estabelecer. Não ter comprovante de residência e ‘credit score’ (indicador que serve para avaliar o grau de credibilidade financeira de um indivíduo) me deu uma sensação de não pertencimento”, relatou a farmacêutica.
A barreira linguística também se destacou em sua experiência, mas, com o apoio de outros imigrantes, ela conseguiu superar os obstáculos iniciais.
“Logo me estabilizei, mas a sensação de insegurança persiste, especialmente agora com o retorno de Trump ao poder”, contou.
Ao ser questionada sobre sua experiência de adaptação, a farmacêutica descreveu a dificuldade de conseguir um imóvel e um cartão de crédito. “Tudo isso me fez sentir que não tinha espaço aqui. Mas a comunidade de imigrantes foi fundamental para me ajudar nesse processo. Sem esse suporte, a jornada teria sido muito mais difícil”, acrescentou.
Contrastes de realidade
Esses desafios também foram enfrentados pela administradora Dorian Klekar, 49 anos, que chegou aos Estados Unidos há quase quatro anos, movida por um casamento. Klekar compartilhou suas impressões sobre a vida em Austin, no Texas, e a segurança que encontrou lá, em contraste com a violência que deixou para trás em Manaus.
“Aqui a gente anda na rua e não tem medo de ser assaltado. A particularidade aqui do Texas é que as ruas não são tão iluminadas. Tem rua que você não tem iluminação nenhuma, você só vê a iluminação dos carros, e as pessoas dirigem assim numa boa, sabe? Em Manaus, minha terra natal, é bem iluminado. Mas, em compensação, nossa… o que tem de assalto e violência… Aqui é totalmente diferente, o oposto. Aqui, quando você vê violência, já são aqueles extremos que a TV mostra, de alguém que invadiu a escola e matou pessoas por vingança, por causa de bullying, essas coisas”, relatou Dorian.
Quando questionada sobre suas dificuldades ao chegar nos EUA, Dorian destacou a barreira da língua como um dos principais desafios. “Eu trabalhei na área de logística e era forçada a me comunicar em inglês, mas o ensino que tive em Manaus não era eficaz. Aqui, as pessoas são amigáveis e dispostas a ajudar, mas o constrangimento de não ser compreendida é difícil”, comentou.
Ela também mencionou uma experiência em que teve que pedir ajuda para entender uma dentista. “Foi um momento embaraçoso, mas também um sinal de que eu precisava estudar mais para melhorar meu inglês”, disse.
Realidade do “sonho americano”
Dados levantados pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) apontam que aproximadamente 4,5 milhões de brasileiros vivem no exterior, sendo os Estados Unidos o principal destino, com cerca de 1,9 milhão de imigrantes. As informações são referentes ao ano de 2022 e foram publicadas em 2023.
A maior parte desses brasileiros busca o chamado “sonho americano”. Entretanto, os amazonenses que vivem lá relatam que a realidade é bem diferente.
Após quatro anos sob o comando do democrata Joe Biden, o republicano Donald Trump voltou ao poder. O agente de rampa de aeroportos André da Silva, 28 anos, que viveu no país durante as duas gestões, olha com preocupação o retorno de Trump como presidente.
“Não me sinto seguro em um país onde o próprio presidente é visto como um ditador (sic). Todo mundo respeita e segue o que ele fala aqui, ninguém tem voz para dizer o que é certo ou errado por medo dos apoiadores”, criticou o profissional de carga.
O manauara acrescentou ainda o recente caso em que vários brasileiros foram algemados e deportados dos EUA em um voo que precisou realizar uma parada emergencial no Aeroporto Internacional de Manaus.
“O povo segue muito a vida normalmente aqui se matando de trabalhar pra sustentar sua família. Então vejo esse caso de deportação irá afetar demais aqueles trabalhos que ninguém quer fazer. Porque a maioria destes ‘subempregos’ são ocupados por aqueles que não tem documentos pra viver no país. Mas vamos ver como irá funcionar daqui pra frente, tem muita coisa para acontecer”, destacou Silva.
Latinos são os mais impactados
Outras mudanças tomadas por Trump também preocupam os amazonenses que vivem como imigrantes no país.
Como profissional da área da saúde, a farmacêutica acredita que o posicionamento do presidente Donald Trump pode afetar diretamente a população do país, principalmente as pessoas latinas.
“Pode-se esperar uma maior dificuldade para legalização de imigrantes, e portanto precarização das condições dessas pessoas. Outro ponto importante da política de Trump, são as medidas relacionadas a saúde, que pretendem desconstruir programas como o Medicaid, que reduz os custos para contratação de planos de saúde, algo essencial nos EUA. O Medicaid é direcionado a população de baixa renda, crianças e seus pais, entre outros grupos. Muitos latinos são beneficiados por esse programa, e seriam afetados pela sua extinção, assim como de outros programas sociais”, relatou.
A administradora Dorian Klekar, 49 anos, que só experienciou o governo Joe Biden, criticou a situação econômica do país onde o preço da gasolina chegou a quase 7 dólares o galão (equivalente a 3,78 litros). Apesar de não ser apoiadora de Trump, Dorian espera que durante nova gestão do republicano, não aconteça mudanças drásticas para os imigrantes.
“Eu não consigo opinar, dizer que vai ser ruim, se tá sendo ruim, porque ele assumiu, né? Vamos ver. Eu espero que ele melhore a economia do país, que aí acaba, todo mundo acaba sendo impactado de alguma forma”, conclui a administradora.
Dificuldade no idioma e suspeita de racismo
Outro amazonense que também enfrentou dificuldades ao chegar aos Estados Unidos foi o manauara André da Silva, 28 anos. O agente de rampa de aeroportos, que vive há quase oito anos nos EUA, relembrou suas dificuldades com o idioma. Contudo, um episódio de racismo foi o que mais o marcou.
“Um dos primeiros desafios foi aprender o idioma. Cheguei em fevereiro e fiquei praticamente sete meses dentro de casa porque não sabia me comunicar. Lembro de uma situação em um museu que fui visitar. Estava andando na loja de lembranças e fui acusado de estar roubando, pois viram nas câmeras que coloquei algo no meu bolso. Depois de uma investigação, constataram que eu não tinha pego nada. Na hora, me veio à cabeça que fui acusado por não ser americano”, disse André, refletindo sobre a experiência dolorosa.