Beco Nonato é o primeiro do país com infraestrutura completa de coleta e tratamento
Beco Nonato, uma comunidade de palafitas no bairro da Cachoeirinha, zona Sul de Manaus recebeu infraestrutura de coleta e tratamento de esgoto e já sente impactos positivos no dia a dia
A água do igarapé já não fede como antes. É isso que moradores do Beco Nonato, uma comunidade de palafitas no bairro da Cachoeirinha, zona Sul de Manaus, têm dito com frequência nos últimos meses. Para quem cresceu sobre tábuas, convivendo com o cheiro ácido do esgoto cru, essa mudança tem nome: rede de esgoto.
“Eu estava aqui quando começaram a instalar a primeira tubulação”, explica o morador Antônio Silveira, 43, que complementa: “Ficou muito melhor, agora podemos ter mais qualidade de vida”, afirma.

Concessionária tem investido em ações que ultrapassam a engenharia (Divulgação)
Foi ali, entre becos estreitos e casas suspensas, que Manaus deu um passo histórico. Pela primeira vez, uma comunidade de palafitas do Brasil recebeu infraestrutura de coleta e tratamento de esgoto. As obras começaram em 2022, e o sistema entrou em operação no início de 2023. O impacto é sentido diariamente, tanto na aparência do igarapé quanto na autoestima dos moradores.
“Essas mudanças são visíveis”, afirma Lineu Machado Junior, gerente de operações da Águas de Manaus. “O cheiro diminuiu, a água melhorou, e a dignidade das pessoas está sendo restaurada.” Para ele, o avanço do saneamento básico na capital está diretamente ligado à saúde pública e à recuperação ambiental.
Desde que a cidade começou a receber investimentos robustos no setor, em 2018, já são mais de R$1,5 bilhão aplicados em obras de saneamento. O reflexo da ampliação do esgoto pode ser sentido na saúde também. Segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, os casos de hepatite A caíram 88% entre 2018 e 2024. Já as notificações de diarreia tiveram uma queda de 46% apenas em janeiro deste ano, comparado ao mesmo mês do ano passado.

Trata Bem Manaus prevê a implantação de 2,7 milhões de metros de redes coletoras de esgoto em toda a cidade (Divulgação)
Conscientização da população
Mas o avanço das redes precisa de algo que o concreto não garante: a adesão da população.
“A estrutura só funciona com a participação das pessoas. Sem conexão, o esgoto continua indo para as fossas ou, pior, para a rede de drenagem da chuva, que acaba sobrecarregada e levando poluição direto para os igarapés”, explica Lineu.
Para evitar isso, a concessionária tem investido em ações que ultrapassam a engenharia. Antes de cada obra, a equipe realiza reuniões com lideranças comunitárias para explicar o cronograma e ouvir sugestões.
Em paralelo, um time de mobilizadores sociais percorre as ruas e becos, porta a porta, explicando por que se conectar à rede de esgoto é um direito — e um dever.
As iniciativas incluem ainda visitas às estações de tratamento, por meio do programa Portas Abertas, e identificação de famílias que podem se beneficiar das tarifas sociais Manauara e Tarifa 10.
Mudanças na paisagem e no ar
Enquanto isso, no Beco Nonato, o esgoto deixou de ser invisível. E a água, que por tanto tempo foi sinônimo de abandono, agora começa a refletir outra imagem.
“Foi uma mudança enorme para nossa família. Aderir à rede de esgoto tirou o mau cheiro do igarapé e trouxe mais saúde pra casa, pras crianças. A gente vive com mais dignidade agora. Nós pagamos apenas a tarifa social Manauara, que cabe no nosso bolso. Eles explicaram direitinho como funciona, e agora estou mais tranquilo sabendo que dá pra pagar sem apertar o orçamento”, diz Antônio Silveira.