Além dos muros: da rua à galeria
Muralistas e curadores refletem sobre a presença da arte urbana em centros culturais sem perder sua essência social e política
As cores que ocupam viadutos, muros e tapumes já fazem parte do cotidiano das grandes cidades. Mas, nos últimos anos, um movimento tem chamado a atenção: a arte que nasceu nas ruas ocupa cada vez mais galerias e centros culturais.
Esse intercâmbio ganha destaque com o Dia do Artista Plástico, celebrado nesta sexta-feira (8), data tradicionalmente associada à pintura, escultura e desenho, mas que também abre espaço para linguagens contemporâneas das artes visuais, como o grafite e o muralismo.
O que explica essa aproximação? Para os artistas, é uma chance de levar a mensagem das ruas para novos públicos. A artista visual Wira Tini constrói essa ponte. Descendente do povo Kokama, ela
utiliza sua arte para dar visibilidade a saberes ancestrais e à realidade da mulher indígena na Amazônia contemporânea.
Com trajetória em festivais nacionais e criadora do projeto Graffiti Queens, voltado ao protagonismo feminino, Wira transita entre a arte de rua e as exposições sem perder a força do discurso. “Onde quer que eu vá pintar, não importa onde eu es- teja executando o meu trabalho, eu sempre vou falar sobre essa Amazônia contada pelos amazônidas”.
Diálogo entre espaços
Essa circulação entre rua e galeria também transforma a forma como as obras são produzidas e recebidas pelo público. Embora diferentes, os espaços se complementam. “O processo criativo de pintar na rua é um, porque a gente está mais exposta. Dentro da galeria é diferente, é um lugar mais fechado, direcionado para um nicho de pessoas. Então, uma exposição vai muito de acordo com a proposta que a galeria está pensando”.

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Ainda assim, para Wira, a força da arte urbana continua ligada ao acesso.“É a arte mais democrática, porque a gente consegue ver ela o tempo todo. Ninguém sai de casa pensando ‘vou ao museu’ ou ‘vou à galeria’. A gente não é criado para consumir arte nesses espaços. A arte urbana não, é só sair de casa que você vai acabar vendo um mural”.
Esse movimento de aproximação também impulsiona a profissionalização da cena. “As galerias começaram a compreender que é uma arte contemporânea também, que os artistas têm uma narrativa de pesquisa. Isso faz com que muitos artistas urbanos queiram se profissionalizar, montar portfólio, ter um currículo. Acaba virando uma dedicação integral e levando muitos artistas, principalmente do Norte, para um lugar de protagonismo”.
Entre rua e galeria
Para a curadora Virna Lisi, a capital criou um modelo próprio de circulação da arte urbana. “Manaus, um cenário tão único, oferece um modelo híbrido e descentralizado de circulação da arte urbana, onde a rua continua sendo espaço de criação e resistência. Mas as galerias e centros culturais também servem à periferia, meio que funcionam como instâncias de legitimação e memória. Isso cria um cenário único, em que a arte urbana não perde sua essência popular ao entrar nos espaços institucionais, mas ganha novas camadas de visibilidade e reconhecimento”.
Ao mesmo tempo, ela ressalta que essa transição exige cuidado para não descaracterizar a essência política e social. “As artes urbanas têm múltiplas formas de existência; a criação nunca para. Há grafite, mural, lambe-lambe, stickers, pixo, performance, linguagens diversas, carimbos, intervenções — e outras que talvez eu nem conheça ainda. Todas são linguagens bem distintas. No entanto, é possível afirmar que possuem uma caracteristica essencial em comum: carregam bagagem sociopolítica”.
A partir dessa pesquisa, a curadora afirma que a discussão vai além da estética e passa pelas vivências de quem ocupa as ruas. “É ai que eu entro. Como curadora e pesquisadora, cientista social, reflito sobre muitas questões: quem anda nas ruas, nas madrugadas, com spray na bolsa, se expressando? O que pintam? O que escrevem? Onde habitam? Como habitam? Têm o que comer? Em que trabalham? Seus locais têm qualidade de vida? Há políticas públicas , escolas, transporte?”, completa.
Levar essa produção para a galeria, nesse contexto, é o desafio de não intervir em sua essência, mas dar voz à arte para espelhar, o mais fielmente possível, o que se faz na rua.

Grafites das artistas Marieta e Tial, na casa flutuante de Virna Lisi, no Rio Tarumã (Foto: divulgação)
Fomento à arte
A discussão também passa pela valorização da cena local e pelas condições oferecidas aos artis-tas. “É capcioso olhar ingenuamente para galerias privadas e da esfera pública como se estivessem altruisticamente fomentando a arte. Na maioria das vezes, o cachê é simbólico e irrisório, e há pouquíssimas vagas em editais para arte urbana diante de centenas de projetos. Temos muitos artistas talentosos, reconhecidos fora do Amazonas e até internacionalmente, mas aqui ainda é uma luta serem valorizados como merecem. A arte urbana manauara é potente e precisa de reconhecimento e de mais recursos, principalmente por meio de políticas públicas”, conclui.