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A Crítica
Meio Ambiente

Chuvas reduzem queimadas e garantem ar mais limpo em Manaus em 2025

Após anos de fumaça intensa e seca severa, capital amazonense registra melhora de 85% nos focos de incêndio em agosto e mantém índices de qualidade do ar dentro da normalidade, segundo especialistas

Publicado em 04/10/2025 às 10h22 · Atualizado em 04/10/2025 às 15h44
Chuvas reduzem queimadas e garantem ar mais limpo em Manaus em 2025
Foto: Junio Matos

Diferente dos últimos anos, em que Manaus enfrentou fumaça intensa e seca severa, a qualidade do ar em 2025 tem se mantido em níveis considerados bons. Chuvas atípicas em pontos isolados da Amazônia e uma queda histórica nas queimadas são os principais fatores que explicam o cenário atual, segundo especialistas ouvidos por A CRÍTICA.

Segundo o professor Rodrigo Souza, idealizador do aplicativo Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), ferramenta que monitora a poluição atmosférica no estado, as chuvas têm sido determinantes para afastar novos episódios críticos. A queda expressiva nas queimadas também ajudou a reduzir os riscos, segundo ele.

De acordo com o professor, os índices registrados até agora estão “dentro dos limiares recomendados pela legislação atual, sem necessidade de alerta”. Ele destacou que a previsão climática do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) indica que as chuvas devem permanecer dentro da normalidade e, se esse cenário se confirmar, a expectativa é que a qualidade do ar continue estável nos próximos meses.

Situação diferente em anos anteriores

Nos anos anteriores, Manaus e municípios da Região Metropolitana e do Sul do Amazonas enfrentaram momentos críticos devido às queimadas e à estiagem severa, especialmente em 2023 e 2024. Nesse período, a capital amazonense ficou encoberta por dias seguidos e o aplicativo Selva apontava frequentemente péssima qualidade do ar.

O meteorologista Leonardo Vergasta explica que, em 2023, a região amazônica sofreu a influência do fenômeno El Niño e, em 2024, a combinação do El Niño com o aquecimento anômalo do Atlântico Tropical Norte.

“Esses dois fenômenos foram cruciais para que tivéssemos um déficit de chuva bem grande dentro da Amazônia, o que consequentemente acaba causando uma redução da umidade relativa do ar, umidade do solo e menor quantidade de água na atmosfera, favorecendo as queimadas na região”, disse Vergasta.

Já em 2025, ele afirma que, mesmo com chuvas abaixo da normalidade nos meses críticos de agosto e setembro, os índices não ficaram tão fora da curva. Segundo Vergasta, em alguns pontos isolados da Amazônia e até mesmo do Amazonas houve registro de precipitação levemente acima da média climatológica, garantindo mais umidade e reduzindo drasticamente as queimadas.

Em comparação, 2025 já mostra sinais mais positivos, com uma redução de 85% nos focos de queimadas já em agosto em relação ao ano passado, conforme destaca o professor Rodrigo. Em consulta ao aplicativo Selva, na tarde de sexta-feira (3), Manaus aparecia no mapa com sinal verde e qualidade do ar considerada boa em toda a extensão da cidade.

“Se as chuvas continuarem, a qualidade do ar deve permanecer boa. Anos anteriores foram de seca extrema, esse ano está dentro da normalidade. As queimadas já reduziram 85% [em agosto] em relação ao ano passado. 2025 será mais tranquilo do que 2023 e 2024”, afirmou Rodrigo.


Professor Rodrigo Souza é o idealizador do aplicativo Selva (Foto: Paulo Bindá)

 

A Defesa Civil do Amazonas, no entanto, tem emitido boletins que apontam qualidade do ar em nível moderado para alguns municípios do estado, recomendando cuidados à população, sobretudo entre grupos mais vulneráveis.

Segundo o último boletim divulgado na manhã de sexta-feira (3), os municípios de Manicoré (Santo Antônio do Matupi), Novo Airão, Iranduba, Autazes, Parintins e Barreirinha estavam com a qualidade do ar moderada.

Ipaam confirma redução nas queimadas

O Amazonas registrou em setembro de 2025 uma redução histórica nos focos de calor, com queda de 86,31% em relação ao mesmo período do ano passado. Foram 942 ocorrências contra 6.879 em 2024, o menor número em 23 anos de monitoramento pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). 

Pela primeira vez, o estado teve um total mensal inferior a mil registros de focos de calor, resultado acompanhado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). Ainda segundo os dados do Inpe, monitorados pela Sema e Ipaam, no acumulado de 2025, entre janeiro e setembro, o Amazonas somou 3.282 focos de calor, 18.832 a menos que no mesmo período de 2024, quando 22.114 focos foram registrados.

Estudo pioneiro na Fiocruz Amazônia

Enquanto os indicadores atuais são animadores, pesquisadores buscam entender melhor os impactos da poluição atmosférica na saúde. O físico Polari Batista Corrêa, doutor em Clima e Ambiente e pesquisador vinculado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz/Amazônia), conduz um estudo considerado pioneiro no estado.

O trabalho pretende relacionar estatisticamente a concentração de material particulado (PM2.5) e os dados de queimadas com doenças respiratórias e cardiovasculares, inicialmente em crianças e idosos, nos 62 municípios do Amazonas.

“A ideia é buscar relações estatísticas da qualidade do ar com internações hospitalares, inicialmente entre os grupos mais vulneráveis”, explicou Corrêa.

Sem estações de monitoramento de referência na região, segundo ele, o projeto utiliza dados de satélites da Nasa e da Universidade de Washington em Saint Louis, integrados a modelos atmosféricos e registros locais.

“É uma abordagem inédita para a Amazônia, porque adicionamos variáveis ambientais específicas que nunca haviam sido correlacionadas dessa forma com doenças na região”, disse o pesquisador.

O estudo ainda é recente, mas pretende trazer novas informações sobre os efeitos da poluição do ar na saúde da população amazonense.