Filhotes devolvidos à natureza são ‘termômetro’ de equilíbrio ambiental
Liderada por ribeirinhos e cientistas, a preservação devolve vida aos rios em comunidade do Careiro
Ainda estava escuro quando Luiz Carlos Ferreira Lira, 62, afundava os dedos na areia úmida de um barranco no Careiro, interior do Amazonas. O gesto é lento, quase cerimonial. Ele não olha diretamente para o chão — tateia. Procura, com a memória do corpo, as pequenas elevações que apontam a presença de vida escondida. Ali, sob poucos centímetros de areia, estão os ovos de tracajá depositados durante a madrugada.
O dia ainda não começou completamente, mas o trabalho de conservação já está em curso. “Se a gente não tirar do barranco e levar para o berçário, o bicho não vinga”, diz ele, sem interromper o movimento.
A cena se intensificou nos últimos anos, após uma longa temporada em que o número de tracajás caiu bruscamente devido à caça predatória. Agora, o mês de setembro virou, para Luiz e outros moradores da região, o mês do manejo. O que antes era coleta para consumo ou venda agora faz parte de uma engrenagem mais complexa, que mistura saber tradicional, ciência e voluntariado.
O retorno dos quelônios é resultado de um esforço que une a comunidade e o projeto Pé-de-Pincha, iniciativa de conservação ligada à Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e ao Programa Quelônios da Amazônia, com apoio de instituições como o Ibama e, mais recentemente, o Instituto Claro.
Criado em 2010, o Pé-de-Pincha protege os quelônios recolhendo ovos durante a seca com a ajuda de voluntários. Os filhotes ficam em berçários protegidos até a época da cheia, quando são reintegrados ao ecossistema.
O trabalho começa na vazante, quando os rios recuam e expõem as praias onde os quelônios desovam. Os ovos são recolhidos e levados para áreas protegidas — berçários improvisados que podem ser caixas d’água, cercados de madeira ou estruturas montadas no quintal das casas. Ali, os filhotes passam semanas sob vigilância constante, até que o ciclo das águas permita o retorno ao rio.
Meses depois, quando as chuvas já redesenharam o mapa do rio, chega o momento mais esperado pela comunidade: a soltura.
No último fim de semana, comunidades como Brasil 2, Pirainha, Tracajás e Tucunaré participaram da segunda etapa das devoluções de filhotes à natureza. Apenas no primeiro trimestre de 2026, a ação deve devolver cerca de 11 mil tracajás aos rios amazônicos. Antes disso, ainda em fevereiro, outros 5.243 filhotes já haviam sido soltos em Santo Antônio, Pacatuba e Lago Preto. O circuito faz parte das comemorações dos 25 anos do Instituto Claro.
As ações de preservação e soltura ocorrem de forma contínua em locais como o Igapó-Açu, que já contabiliza 16 anos de projeto, e no Ramal do Mamori, com 15 anos de atuação.
Lago do tracajá
O Lago do Tracajá fica no Careiro, a algumas horas de Manaus, e depois que o asfalto acaba e o caminho passa a depender de ramais de terra. A paisagem se abre em braços de rio, barrancos e troncos escuros onde, durante a seca, os quelônios costumam se amontoar para tomar sol. Mas nem sempre foi assim.
Durante anos, os moradores da região conviveram com um contraste difícil de ignorar: no Lago do Tracajá, quase não havia tracajá.
Com 46 anos de idade e morando há três décadas na comunidade Boca do Tamborim, Irandir Pereira dos Santos assumiu uma missão vital. Há seis anos, ele atua como voluntário no Pé-de-Pincha, motivado por um contrassenso histórico que incomodava os moradores: o sumiço dos quelônios no lugar batizado justamente como Lago do Tracajá.
A escolha do nome do lago, segundo os moradores mais antigos, deve-se ao formato do mapa da região, mas a escassez da fauna já não justificava o título. “Para representar melhor o local, já que a comunidade se chama Lago do Tracajá, seria melhor que a gente entrasse nesse projeto para aumentar os tracajás”, relembra Seu Irandir, orgulhoso da decisão de agir.
Trabalho começa cedo
A rotina de conservação exige que o ribeirinho madrugue. Por volta das 5h30, ele já está nas margens do rio, vasculhando as barrancas em busca dos ninhos. O objetivo é chegar aos ovos antes do jacuraru, um grande lagarto predador da região, garantindo que as ninhadas sejam levadas em segurança para os berçários do projeto.
A corrida diária contra a cadeia alimentar nem sempre é vencida, e a perda de um ninho afeta profundamente o voluntário. “Eu fico triste, né? Decepcionado. Porque eu atrasei e o bicho chegou lá primeiro do que eu”, lamenta o morador, ao descrever o cenário desolador de encontrar apenas as cascas vazias deixadas pelo predador antes de uma colheita.
“Hoje já tem mais. A gente já vê eles nos troncos, tomando sol. Antes não tinha”, diz Irandir. Ele aponta para a margem, como quem confirma o que acabou de dizer. O nome do lago, aos poucos, deixou de ser apenas um nome.
A continuidade do manejo, segundo o voluntário, depende diretamente da nova geração. Ao ver os jovens da comunidade envolvidos nas solturas, ele tem a certeza de que a preservação do Lago do Tracajá não vai parar nele. “Eles vão aprendendo. Quando crescerem mais, já sabem fazer o trabalho”, conclui Iranildo.
“Os quelônios são importantes para o ecossistema amazônico. Dispersam sementes, reciclam matéria orgânica, ajudam a manter os rios limpos e as florestas alagadas vivas”, explica o zootecnista Ruben Junior, do Pé-de-Pincha.
Conservação e cidadania

Preservação de quelônios transforma comunidades no Amazonas (Foto: Junio Matos) ()
Além do impacto ambiental, o projeto Pé-de-Pincha garante cidadania aos colaboradores ribeirinhos. Como a entrega anual de certificados atesta o trabalho realizado a cada ciclo, o documento passou a suprir uma lacuna estrutural das comunidades rurais: a falta de um endereço fixo ou CEP.
“O certificado serve como um comprovante de residência. Quando a pessoa vai ao INSS para se aposentar, ela usa o documento para atestar que mora e trabalha naquele local. Muitos comunitários já conseguiram a aposentadoria por causa disso”, explica Midian Salgado, técnica da Ufam e voluntária no projeto desde o ínicio.
O impacto também se estende à formação profissional. O acúmulo de certificados enriquece o currículo e já ajudou diversos participantes a conquistar empregos e vagas em universidades — incluindo comunitárias que, hoje, já chegaram ao doutorado.
A base para esse engajamento comunitário, que conta com o apoio do Ibama, é a mudança de mentalidade. “Nós conscientizamos os adultos para que, ao acharem uma cova de ovos, não os destruam ou comam, mas entreguem para uma chocadeira. É uma sensibilização com os mais velhos aliada à educação ambiental com as crianças”, conclui Midian.
Ecoturismo como potencial atrativo
Para a Secretária de Turismo de Careiro Castanho, Neuzilena Macena, a união entre a gestão municipal e o Projeto Pé-de-Pincha representa um potencial atrativo para a região. A prefeitura, que já apoia a iniciativa há bastante tempo, tem planos ambiciosos: transformar o manejo de quelônios em um roteiro ecológico.
A ideia é estruturar a atividade para que os visitantes possam acompanhar de perto todo o ciclo de conservação, desde a coleta dos ovos nas praias até a eclosão e a emocionante soltura dos filhotes na natureza. Essa integração, segundo a secretária, é fundamental para o desenvolvimento sustentável do município, que já atrai visitantes interessados em seus tradicionais hotéis de selva.
“Turismo sem preservação ambiental não existe; quem faz turismo tem que ter consciência ambiental”, destaca Neuzilena. Ela ressalta que o setor hoteleiro e os empresários locais compreendem essa dinâmica e apoiam ativamente o projeto, cientes de que a manutenção da biodiversidade é o que garante a sobrevivência da atividade turística a longo prazo.
Para fortalecer o ecoturismo no Careiro e garantir geração de renda o ano inteiro para as comunidades, os hoteleiros de selva apostam na profissionalização de guias nativos e na preservação ambiental, contrastando com o mercado já consolidado e sazonal da pesca esportiva.
No entanto, o desenvolvimento do setor esbarra em graves gargalos de infraestrutura, principalmente a falta de pavimentação dos ramais de acesso, o que encarece a logística. Diante desses obstáculos e da necessidade de maior fiscalização portuária para combater pousadas irregulares, os empresários têm se organizado em associações para estruturar os serviços e cobrar apoio na promoção do destino, visando elevar o município ao patamar dos grandes polos turísticos de excelência da Amazônia.
Trabalho contínuo
Os quelônios são bioindicadores naturais precisos: a saúde e as taxas de reprodução dessas populações revelam a qualidade da água, a integridade das margens e até mesmo os impactos das mudanças climáticas na região. O trabalho contínuo de manejo não apenas blinda essas funções vitais contra o avanço da caça predatória, mas é a peça-chave para assegurar o equilíbrio ecológico do bioma e a segurança alimentar das próprias comunidades ribeirinhas que dividem o rio com eles.