Jardim Botânico de Manaus abre espaço para exposição sobre “Peixe e Gente”
Instalação no meio da floresta apresenta a relação peculiar entre a pesca e a mitologia indígena, para as etnias Tukano e Tuyuka, que vivem na região do Alto Rio Negro
O imaginário fantástico dos povos Tukanos do Alto Rio Negro tomará conta a partir desta terça-feira (6), do Jardim Botânico Adolpho Ducke, localizado no bairro Cidade de Deus, na Zona Leste de Manaus.
Intitulada “Peixe e Gente”, a mostra é na verdade uma grande instalação no meio da floresta, onde os visitantes poderão conhecer a relação existente entre a pesca e a mitologia indígena, para as etnias Tukano e Tuyuka, que vivem no rio Tiquié, localizado na região do município de São Gabriel da Cachoeira – a 858 quilômetros de Manaus.
“Os conhecimentos tradicionais destes povos no que diz respeito à pesca estão ameaçados por artefatos “modernos”, como malhadeiras e tarrafas. A exposição pretende mostrar este conhecimento tradicional atrelado à mitologia, e contribuir para o tombamento deste sistema de pesca, assim como ocorreu com a agricultura deles”, informa o diretor geral do Museu da Amazônia (Musa), Ennio Candotti.
Baseada na obra “Gente e Peixe no Alto Rio Tiquié”, do antropólogo Aloísio Cabalzar – curador da exposição -, a mostra apresenta aos visitantes os vários tipos de armadilhas de pesca desenvolvidas pelos indígenas, além de vídeos sobre a produção dos mesmos e textos que explicam o significado dos mitos que permeiam o imaginário dos povos do alto rio Negro relacionados a criação do mundo (Cobra-grande) e também ao surgimento da Gente–Peixe e a humanidade – Kamaueni e Diabo sem Cu, respectivamente.
“O visitante que chegar ao Jardim Botânico fará uma espécie de mergulho no universo dos povos Tukanos, conhecendo os seus mitos e as suas ferramentas de pescas, bem como o processo de construção destas peças, como foram idealizadas”, avalia Zeca Nazaré, responsável pela concepção artística da exposição, juntamente com o artista dessana Feliciano Lana.
Com entrada gratuita, a exposição ficará por dois meses abrigada no Jardim Botânico e conforme Ennio e Zeca, ao longo deste período, ela deverá integrar algumas atividades como contação de histórias, teatro, entre outras. As visitas serão guiadas.
Espaços
Duas tendas e um galpão foram utilizados para a exposição, que entre outras coisas apresenta as várias armadilhas utilizadas pelos indígenas – como jequi, cacuri e matapi – de inúmeros tamanhos e de que forma as mesmas são construídas.
Segundo Candotti, há todo um processo no desenvolvimento das armadilhas e do processo de pescas dos povos do rio Tiquié, como se fosse um espécie ritual. Desde a separação do material para montá-las até o encantamento das mesmas. No entendimento destes povos, se o cesto colocado no rio não tiver sido “encantado” , o peixe não será capturado.
As peças de pequeno porte foram confeccionadas nas comunidades de Caruru, São Domingos, Bela Vista, São Paulo (Etnia Tukano) e São Pedro (Tuyuka). As de grandes dimensões foram feitas em Manaus.
A abertura desta terça-feira contará com a “Dança do Peixe”, além de quatro artistas indígenas que trabalharam na montagem das peças e conhecedores que dominam as técnicas de benzeduras das armadilhas.
Concebida durante seis meses, a mostra foi desenvolvida pelo Musa em parceria com Instituto Social Ambiental (ISA).
Sapos
Paralelo à exposição “Peixes e Gentes”, o Jardim Botânico também abriga a partir desta terça-feira, a exposição “Sapos, peixes e musgos – a vida entre a terra e a água na Reserva Ducke”.
Montada em uma tenda de 300m², os visitantes poderão conhecer um pouco da vida anfíbia existente na Amazônia, por meio de aquários, totens, painéis, entre outros elementos. O visitante também poderá conhecer o jogo do Cururu, que consiste na identificação destes animais, por meio do seu canto.
Conforme Ennio Candotti, após a exposição sobre os anfíbios, o Musa deve preparar outra mostra sobre mimetismo e camuflagem.