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A Crítica
Meio Ambiente

Lixões a céu aberto elevam o risco de incêndios

Especialistas alertam para os perigos do chorume nos lençóis freáticos e a proliferação de fumaça tóxica  

Por Thiago Monteiro, Manaus, AM
Publicado em 17/10/2026 às 14h37
Lixões a céu aberto elevam o risco de incêndios
Depósitos irregulares de lixo provocam incêndios e geram fumaça com compostos tóxicos. Foto: Arquivo AC

“Lixões e depósitos irregulares de resíduos sólidos são áreas de alto risco de incêndio no Amazonas, principalmente nos períodos secos e quentes do ano, além de representarem uma ameaça às águas subterrâneas”, afirma o diretor-geral do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Henrique Pereira.

Segundo ele, o risco está relacionado ao acúmulo de materiais combustíveis, como plásticos, papéis, tecidos, restos de madeira e resíduos orgânicos. Durante a decomposição, esses materiais também podem liberar gases inflamáveis, como o metano.

“Queimar resíduos intencionalmente, descartar materiais inflamáveis de forma inadequada e não adotar medidas de prevenção aumentam ainda mais esse risco. Se o fogo começar, pode se espalhar pelos resíduos e alcançar áreas de vegetação próximas, dependendo das condições do vento e da umidade”.Henrique Pereira, diretor-geral do Inpa

O diretor-geral do Inpa ressalta que outro problema grave é a fumaça produzida pela queima desses materiais. Além do material particulado fino (PM2,5), capaz de atingir as regiões mais profundas do sistema respiratório, a queima de resíduos urbanos pode liberar gases tóxicos e substâncias perigosas à saúde, como dioxinas e furanos, dependendo da composição do material queimado.

De acordo com Pereira, a fumaça representa um risco especialmente elevado para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares.

Contaminação das águas subterrâneas

Pereira destaca que os riscos para as águas subterrâneas também são significativos. Quando a água da chuva atravessa os resíduos, pode transportar substâncias contaminantes e formar o chorume, líquido resultante da decomposição do lixo.

“Sem sistemas adequados de impermeabilização e coleta desse líquido, ele pode se infiltrar no solo e atingir os aquíferos (formações geológicas subterrâneas), prejudicando a qualidade da água. Isso é ainda mais preocupante em comunidades que utilizam poços para obter água potável. Mesmo que as chuvas intensifiquem esse processo, a contaminação pode persistir durante todo o ano”, afirma.

Bióloga e pesquisadora da Embrapa, Elisa Wandelli, reforça que o chorume transporta metais pesados altamente tóxicos (Foto: Jeiza Russo)

Para o diretor do Inpa, o incêndio que atingiu uma área de mata e de descarte de lixo no Distrito Industrial II, em Manaus, evidencia os riscos associados à destinação inadequada de resíduos. Durante o combate às chamas, a presença de materiais como plásticos e óleo dificultou o trabalho das equipes. Pereira ressalta, porém, que a causa do incêndio e a eventual contaminação das águas subterrâneas precisam ser confirmadas por meio de investigação técnica.

“Os lixões são um problema ambiental e de saúde pública que vai muito além do acúmulo de lixo. Na estação seca, aumentam o risco de incêndios e agravam a poluição do ar. Já no período chuvoso, cresce o risco de os contaminantes atingirem o solo e as águas subterrâneas”, explica.

Queimadas e poluição ambiental

A bióloga e pesquisadora da Embrapa Amazônia Ocidental Elisa Wandelli também alerta para os impactos ambientais das queimadas e da destinação inadequada dos resíduos sólidos na região. Segundo ela, a Amazônia enfrenta um cenário preocupante de incêndios florestais, que liberam partículas em suspensão, substâncias tóxicas e gases de efeito estufa. A pesquisadora destaca que a queima da vegetação também libera compostos provenientes da combustão da madeira e de seus componentes.

Wandelli afirma que os depósitos irregulares de resíduos agravam esse cenário, pois aumentam o risco de propagação do fogo para áreas de vegetação próximas e constituem fontes adicionais de poluição.

“No caso da queima de depósitos clandestinos de lixo ou de lixões que funcionam sem cumprir a legislação e as normas técnicas da Política Nacional de Resíduos Sólidos, há um aumento da possibilidade de a vegetação e as florestas adjacentes pegarem fogo, com risco de propagação descontrolada. Além disso, esses locais são fontes de contaminação química e biológica, com microrganismos potencialmente nocivos aos seres vivos”, disse.Elisa Wandelli, pesquisadora da Embrapa Amazônia Ocidental

A pesquisadora também chama a atenção para os impactos do chorume sobre o solo e os recursos hídricos. Segundo ela, quando os depósitos não possuem sistemas adequados de impermeabilização, a água da chuva atravessa os resíduos, carrega substâncias contaminantes e favorece sua infiltração no solo até atingir o lençol freático.

Entre os contaminantes que podem estar presentes nesse líquido estão metais pesados, como chumbo, mercúrio e cádmio, que podem se acumular nos organismos e provocar efeitos tóxicos.

“Esses metais são extremamente tóxicos e podem se acumular nos seres vivos, causando impactos nocivos à saúde humana e aos demais organismos”, pontua.

Wandelli acrescenta que o chorume também pode comprometer a qualidade da água ao alterar parâmetros relacionados à demanda bioquímica e química de oxigênio.

Agravamento

Compostos nitrogenados, como a amônia e os nitratos, além de substâncias ácidas e óleos, podem agravar a contaminação. Algumas dessas alterações também podem aumentar a mobilidade de metais no solo e na água, ampliando os riscos ambientais.

 Os contaminantes podem alcançar rios, lagos e poços utilizados para abastecimento humano, dependendo das características do solo, da localização dos depósitos e das condições hidrogeológicas da região.

Falta de destinação de resíduos

Para a pesquisadora Elisa Wandelli, a destinação inadequada de resíduos domésticos, industriais e hospitalares representa uma ameaça à qualidade da água e à saúde pública. Ela defende que os governos municipais e estaduais intensifiquem a fiscalização e adotem medidas para garantir o cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010).

A pesquisadora critica a permanência de depósitos a céu aberto no Amazonas e afirma que a falta de infraestrutura adequada compromete a qualidade de vida da população e a conservação dos ecossistemas.

“É fundamental que os governos municipais e estaduais estejam atentos ao cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos, estabelecida em 2010. Essa política busca preservar os recursos naturais e garantir qualidade de vida, ar adequado para respirar e água de qualidade para os seres humanos e a vida silvestre”, afirma.

Ela também destaca que os resíduos poderiam ser reaproveitados como matéria-prima para a fabricação de novos produtos, desde que houvesse coleta, separação e destinação adequadas. Nesse sentido, a pesquisadora defende o fortalecimento de iniciativas como a logística reversa, a economia circular e a implantação de aterros sanitários com infraestrutura técnica apropriada.

Segundo Wandelli, a falta de destinação correta dos resíduos pode comprometer o solo, a água e a produção agrícola, além de agravar a poluição atmosférica durante os incêndios.

A queima de lixo pode liberar monóxido de carbono, dióxido de carbono, óxidos de nitrogênio e de enxofre, amônia e outros compostos, dependendo dos materiais envolvidos. A exposição a essas emissões pode prejudicar principalmente os sistemas respiratório e cardiovascular.

Caso de Iranduba

A bióloga e pesquisadora da Embrapa Amazônia Ocidental Elisa Wandelli critica a situação da destinação de resíduos em Iranduba (a 27 quilômetros de Manaus). Segundo ela, a localização de um depósito de lixo nas proximidades de áreas de produção agrícola pode representar riscos adicionais para o solo, a água e as plantações.

“O caso de Iranduba é inadmissível. Como a prefeitura ainda não instalou um aterro sanitário adequado? O local onde o lixo é depositado fica próximo de uma área de agricultores orgânicos, que fazem um esforço enorme para produzir alimentos saudáveis, sem agrotóxicos e sem desmatamento. Nos arredores dessas propriedades, há um lixão que pode contaminar as plantas pela fumaça das queimadas e comprometer o solo e as águas subterrâneas por meio do chorume”, afirma.

Wandelli reforça que a implantação de sistemas adequados de gestão de resíduos é essencial para reduzir os impactos ambientais e sanitários, especialmente em uma região que abriga a maior floresta tropical do planeta.

“Cuidar da natureza, da água e do solo, dando uma destinação adequada aos resíduos sólidos, é fundamental para manter a qualidade de vida e garantir a própria sobrevivência da humanidade. A população do Amazonas merece que seus resíduos tenham uma destinação correta, conforme estabelece a Política Nacional de Resíduos Sólidos”, conclui.Elisa Wandelli, pesquisadora da Embrapa Amazônia Ocidental