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A Crítica
Meio Ambiente

Mudança do clima ameaça segurança alimentar do Brasil

A avaliação é do renomado cientista brasileiro Paulo Artaxo, membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU

Publicado em 02/07/2025 às 18h44
Mudança do clima ameaça segurança alimentar do Brasil
Foto: Paulo Bindá

Os extremos do clima, o aumento da temperatura do planeta e as  alterações nos regimes de chuvas no Brasil são ameaças reais à segurança alimentar do país e do mundo. A avaliação é do renomado cientista brasileiro Paulo Artaxo, membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU. Ele falou sobre o tema no evento Diálogos sobre o Clima, realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Manaus, nesta quarta-feira (2).

A  uma plateia de cientistas e membros da sociedade civil, incluindo produtores rurais e indígenas, Artaxo explicou como a agricultura, enquanto setor econômico, deve ser uma das áreas mais afetadas nas próximas décadas, caso o problema continue se agravando. O evento aconteceu a 131 dias da realização da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas no Brasil, em 10 de novembro. 

“Clima não é só temperatura, mas também precipitação, eventos climáticos extremos, e, do ponto de vista de precipitação, os modelos do IPCC preveem para o Brasil um país muito mais seco do que a gente teve ao longo das últimas décadas […] não precisa ser muito esperto para perceber que isso vai trazer dificuldades enormes para a gente alimentar 10 bilhões de pessoas em 2050”, disse a uma plateia formada por  cientistas e representantes da sociedade civil.

Um gráfico do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apresentado por Artaxo mostra que boa parte da região Centro-Oeste do país, onde estão algumas das maiores produções agropecuárias do país, chegou a ficar mais de 150  dias sem chuvas no ano passado. 

Por outro lado, os cenários de seca extrema não são os únicos a prejudicarem o setor. Em algumas regiões, até mesmo o excesso de  chuvas pode  provocar danos à agricultura. “Em São Paulo, quando a gente olha os dias com chuva acima de 80 ou 100  milímetros desde 1935, aumentou por favor 4. Ou seja, quando chove, é muito concentrado. Isso traz impactos para a agricultura”, pontuou.

Cenário

De  acordo  com a Embrapa, o Brasil alimenta a sua própria população e também desempenha um papel significativo no abastecimento global de alimentos. Internamente, 70%  dos  alimentos que chegam aos lares são da agricultura familiar, de pequenos produtores. Já o agronegócio é destaque na exportação. 

Entre os  alimentoss na agricultura com maior valor de produção em 2023, dados mais recente do IBGE, estão a soja, cana-de-açúcar, milho em grão, café, algodão, laranja mandioca, arroz, banana e tomate. 

Já na pecuária, os destaques são para os galináceos, bovinos, suínos, ovinos (ovelhas e cordeiros), codornas, caprinos (bodes e cabras), equinos (cavalos) e bubalinos (búfalos).

Previsão

Na avaliação de Artaxo, se o mundo continuar a emitir 57,1 bilhões de toneladas de gases do efeito estufa a cada ano o mundo poderá esperar uma temperatura média global de 4,3 graus até 2100. Se o Acordo de Paris, que prevê ações dos países  para reduzir a mudança climática for implementado como se prevê  atualmente, o aumento aind deve chegar a 3,7 graus.  O cenário mais positivo seria a implementação de todas as  atuais metas climáticas dos países, o que ainda levaria a um aumento de 2,8 graus. 

“Muito mais importante do que o aumento médio da temperatura global é como essa temperatura é distribuída geograficamente.  No Brasil, por exemplo, o aumento médio seria de 4 graus no país. No Ártico, seria um aumento de 6 a 7 graus”, explicou o cientista.  

Segundo Artaxo, os modelos climáticos atuais apontam que eventos que ocorriam a cada 50 anos no século passado, serão até 39 vezes mais frequentes e cinco vezes mais intensos em um país 5 graus mais quente.

Sobre o evento

A quarta edição da série Diálogos pelo Clima aconteceu no auditório do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). A diretora-executiva de Inovação, Negócios e Transferências de Tecnologia da Embrapa, Ana Euler, destacou a importância da realização do evento em Manaus, no Amazonas. 

“O Brasil é um país diverso, com muitos territórios, muitas agriculturas. Em um país continental como o nosso, a mudança climática nos atinge de maneiras diferentes. Por isso, é importante que a Jornada pelo Clima inclua diálogos em todos os biomas”, disse.
Ela ressaltou a importância dos debates para um ano no qual o Brasil receberá a COP 30, em novembro, em Belém (PA). Além disso, destacou que o país é um dos maiores produtores de alimentos, por isso, é fundamental que o debate seja cada vez mais impulsionado. 

“Não dá para falar de mudanças climáticas de maneira dissociada à produção de alimentos, à gestão dos nossos recursos hídricos, que viabilizam a nossa experiência na terra”, comentou.