Manaus qua, 4 nov
A Crítica
Meio Ambiente

O Banco Central está a serviço do mercado financeiro, avalia dom Leonardo Steiner

Além de questionar os efeitos da política monetária do BC, o cardeal da Amazônia fala, em entrevista ao A CRÍTICA, de outros temas como a questão dos yanomami, BR-319 e transfobia no legislativo

Publicado em 02/04/2023 às 09h14
O Banco Central está a serviço do mercado financeiro, avalia dom Leonardo Steiner
Foto: Jeiza Russo

Na semana que antecede a páscoa, o arcebispo metropolitano de Manaus, dom Leonardo Steiner, reforçou, em entrevista concedida ao A CRÍTICA, que a fome está aumentando no país, motivo que levou a Igreja Católica a debater o tema na Campanha da Fraternidade para dar visibilidade ao problema e buscar caminhos de enfrentamento. 

O cardeal da Amazônia classificou de genocídio as condições a que o povo Yanomami foi submetido no governo anterior. Cobrou a responsabilização dos culpados. 

Steiner repudiou também o discurso de vereadores da Câmara Municipal de Manaus que têm defendido a segregação de pessoas trans. Para ele, todos são filhos de Deus e merecem respeito.

O arcebispo  criticou ainda  o atual patamar de juros e apontou que o Banco Central tem independência do governo, mas não do mercado financeiro. A seguir trechos da entrevista. 


O que levou a Igreja Católica a colocar a fome como tema da campanha da fraternidade deste ano?

Desta vez a fome está sendo abordada por necessidade de debate. A situação econômica levou muitas famílias a terem necessidade de alimento. Sentimos isso na pele aqui em Manaus durante a pandemia. Com a Cáritas e as comunidades pudemos ir ao encontro das pessoas que estavam passando fome. Atendemos mais de 100 mil pessoas. Passada a segunda onda de covid-19, percebemos que a fome estava aumentando. Não só em Manaus, mas no país como um todo. Os bispos responsáveis pelo conselho pastoral da CNBB escolheu a fome como tema da Campanha de Fraternidade.

No meu modo de ver, é um tema muito importante porque acaba não abordando apenas a questão do alimento. Aborda também a segurança alimentar, mas além disso aborda a necessidade do lazer, cultura, saúde, justiça e segurança. Existem várias fomes que fazem parte da existência humana e a campanha da fraternidade deste ano quer discutir isso.

Nas últimas semanas, Manaus tem enfrentado fortes chuvas que deixou desalojados e vítimas fatais de desabamentos e enchentes. As mudanças climáticas intensificaram esse fenômeno que afeta os mais vulneráveis. Pode se dizer que existe ‘fome’ de políticas para habitação?

O atual governo está retomando, mas se deixou de lado a política de habitação que vinha sendo uma política, digamos que razoável. Pessoalmente não era tão favorável ao modo da construção das casas, tudo aglomerado, distante das cidades e sem espaço de educação, comércio e lazer. Mas ao menos as famílias tinham uma casa que já era um sinal de ir ao encontro das famílias.

Se está retomando, vejo isso como uma necessidade. Diria até como uma urgência, mas que seja repensado algumas questões para que as pessoas não precisem sair do local e ir em busca de serviços públicos. Ainda estamos com um déficit bastante grande de habitação. Também há a necessidade de se cuidar da preservação das encostas. Os deslizamentos ocorreram aqui em Manaus, São Paulo e o que aconteceu no passado em Petrópolis.

São lugares inapropriados para habitação. A chuva não pergunta se tem pobre ou rico habitando nestes lugares. A água quer o seu espaço, sua passagem. Há a necessidade também de fiscalização para ajudar as famílias a buscarem espaços onde haja uma garantia de habitação e não ficarem numa situação de tanta fragilidade. 

Mais de 30 milhões de brasileiros passam fome, segundo dados da Rede Penssan. Qual o papel do Estado?

O papel do Estado é ir ao encontro (dos que passam fome). É uma responsabilidade constitucional do estado. Até o atual presidente tem dito que essas questões sociais não podem ser tidas como gastos. Mas entendidas como uma maneira de ajudar a população. A Constituição não pensa assim, mas pensamos que educação, assistência social não é gasto. É a prevenção, a aplicação social. Neste sentido pensamos que há uma necessidade cada vez mais  de repensarmos o nosso modo econômico de gerir o estado brasileiro. 

Se continuar a pensar como estamos agora, vamos sempre ao encontro do mercado e dos grandes bancos. Não pensaremos nas pessoas. O estado está a serviço das pessoas, do brasileiro, da brasileira, das famílias. O estado não está em função de si mesmo. O estado não está em função de camadas mais abastadas: bancos e do mercado (financeiro). 

Quando houve a crítica aos juros quem veio dar entrevistas foi o pessoal do mercado. Não tiveram a delicadeza de ouvir economistas que pensam diferente do mercado.

No ano passado, o senhor foi ordenado o primeiro cardeal da Amazônia pelo papa Francisco. Esse aceno à região significa que a Igreja quer virar a página dos excessos de missões jesuíticas da época da colonização e atuar como defensora dos direitos dos indígenas? 

A criação de um cardeal para a Amazônia tem o seu significado, sim. Primeiro é o significado de proximidade do papa Francisco. O papa Francisco se sente muito próximo da nossa região. As questões sociais que envolvem a região como o meio ambiente, culturas e as comunidades católicas que vivem aqui interessam ao papa Francisco. Sempre interessa a ele a pessoa humana. É claro que isso ocorre depois do Concílio Vaticano II. O Concílio abriu outras perspectivas em termos de serviços de evangelização. 

Se no passado a Igreja estava mais preocupada em batizar, depois do Concílio a Igreja não impôs mais o batismo. Ela dialogou e foi ao encontro. Ela esteve presente nas aldeias indígenas e falou de Jesus e de seu evangelho, mas respeitou o caminho cultural de cada povo.

É preciso dizer que se não fossem os jesuítas os indígenas seriam muito mais escravizados e dizimados como foram. Quem os defendeu da escravidão foram os padres jesuítas. A Igreja não  tratou os povos indígenas de qualquer forma. 

Houve muito respeito. Existe sempre a crítica de que os jesuítas levaram para  as reduções para poderem converter os indígenas mais facilmente. Talvez houve isso. Mas se não fosse Nóbrega e Anchieta o que seriam dos nossos povos indígenas? Se não fosse a Igreja no tempo da ditadura, teríamos menos povos indígenas no Brasil. Na cidade de Manaus houve muito massacre. 

Os Manaós que deram nome a essa cidade. Cadê esse povo? Tiveram que fugir e desapareceram. Se coloca na costa da Igreja algumas questões que historicamente não são da Igreja. A Igreja, pelo contrário, defendeu os povos indígenas. Fizemos uma revisão grande em termos de como levar o evangelho dos povos indígenas. Para não impor. Viver o evangelho é um convite. 

Em janeiro, o país tomou a dimensão do estado de abandono a que o povo yanomami foi submetido. A malária e desnutrição ceifou a vida de quase 100 crianças em 2022, segundo o Ministério dos Povos Indígenas. Para o senhor, o Brasil falhou em garantir o básico aos povos indígenas?  

Falhou gravemente. Quase podemos falar em genocídio. Porque o estado era responsável pelos centros de saúde. O estado é responsável através da Funai de estar presente no meio dos povos indígenas. Se ausentou. Com o avanço do garimpo não houve nenhuma ação do estado em relação a isso. No governo anterior não houve nenhuma ação. Eles entraram e foram destruindo. Tive a oportunidade de ir a Boa Vista e conversar com os indígenas e não tem como não se emocionar ao ouvir as narrativas. 

A narrativa da destruição, das mortes, abusos sexuais e a narrativa das mães que perderam os filhos e não aguentavam de dor e simplesmente se matam. Um povo que devido a desnutrição e fome como me disse um dos indígenas perdeu o espírito. Não existe mais horizonte ou perspectiva. Não têm mais força física para andar e caminhar. O interessante que o ouvi da parte deles que precisam de instrumentos básicos para fazer a roça. 

Espero que a Justiça leve aos tribunais as pessoas responsáveis. Não pode ficar impune um genocídio. Em quatro anos são quase 500 crianças mortas. Eles têm o senso de uma família maior, a aldeia é uma família. Agora imaginem esse número numa aldeia. Que violência o estado brasileiro causou. 

De quem é a responsabilidade por esse suposto genocídio?  

O governo, o estado. Quem está à frente do estado. Os responsáveis dos organismos. A Funai tem responsabilidade, depois a Sesai. Essas pessoas precisam ser responsabilizadas. 

O governo anterior tem responsabilidade? 

Eles não estavam à frente do estado?  Eram eles que estavam à frente desses órgãos. 

A Câmara Municipal de Manaus tem sido palco de discursos que estigmatizam pessoas trans. No último dia 21, os vereadores defenderam leis para segregar pessoas trans em esporte e os classificaram  como ‘aberração’. Como o senhor vê esse movimento?

Toda pessoa humana é filho ou filha de Deus. Pode ser trans, homem ou  mulher. Pode ser uma pessoa que inclusive não tenha capacidade de se situar existencialmente porque não lhe foi dado isso de nascença. Todos são filhos e filhas de Deus. Como querer segregar? Nenhuma pessoa nasceu homossexual porque quis. Ela de repente se dá conta que é uma pessoa homossexual. Por que agora segregar? 

Segregar porque não concordamos e não aceitamos ou deveríamos fazer um grande esforço de ajudar essas pessoas a se sentirem partícipes da sociedade. Não se trata de uma questão meramente moral. Se trata de uma questão moral no sentido da dignidade da pessoa humana. 

O papa Francisco tem insistido que a Igreja Católica esteja aberta e receba essas pessoas na sua dignidade de filhos e filhas de Deus. Em nenhum momento, ele diz: eu concordo. Mas ele diz que cada pessoa precisa ser respeitada. No meu tempo de padre em Curitiba via pessoas homossexuais com uma angústia muito grande. Então, por que aumentar a angústia dessas pessoas? Se são pessoas humanas merecem estar no nosso meio na sociedade. Não podemos colocar uma marca da segregação nas pessoas.

O papa Francisco tem defendido a união civil de homossexuais, mas ainda é contra o casamento em si. Já não está na hora dos católicos ouvirem a comunidade LGBT para integrá-la à igreja dado que o perfil da sociedade tem mudado?

O sacramento do matrimônio é sempre visto como um sacramento do homem e da mulher. E o sacramento da Igreja Católica é sempre visto do ponto de vista da procriação, da geração de filhos. Se temos defendido como Igreja a união civil é para dar direito e dignidade a esse irmão e irmã. O estado precisa assumir essas uniões porque quando essas uniões estão validadas civilmente significa que os direitos à saúde e herança estão assegurados. Quando se trata de sacramento já existem outras questões. O que se discute hoje é uma bênção, mas ainda está em discussão. 

Então ainda falta muito debate para que o casamento homoafetivo seja feito dentro da Igreja?

Não sei se chegaremos a isso. Dado que o sacramento tem o seu modo próprio, mas isso não deveria inviabilizar que as pessoas possam conviver e puderem expressar ao seu modo o amor que têm. 

Neste mês, o pontificado do Papa Francisco completou dez anos. Quais ações o senhor considera mais marcantes? 

Um elemento que pouco se tem falado, mas que considero fundamental nestes dez anos é a questão da misericórdia. O que rege a sociedade é ética ou ao menos deveria ser. É a ética que rege as relações sociais. É a ética que determina a justiça e injustiça. E também é a ética que cria relações harmoniosas. A ética está diminuindo na sociedade, por isso temos tanta violência, corrupção. 

A política se faz cada um do seu jeito. Uma política de grupos porque a ética foi diminuída. Na medida que a ética cresce as relações mudam. Pelo evangelho o que rege a igreja é misericórdia. Misericórdia não só no sentido de perdoar alguém, mas no sentido de acolhimento e relação mútua e das obras dar de comer o faminto, dar de beber ao sedento, receber o migrante. Se for verificar, o papa Francisco toma a misericórdia como fundo da fé.

O final do  texto de Mateus indica justamente o modo de viver de Jesus. O Papa Francisco sempre está insistindo nisso. Quando ele fala da questão da pobreza, paz, fraternidade sempre tem esse fundo que está guiando o pontificado dele. 

Dentro de dez anos é possível que os evangélicos sejam a maioria religiosa no Brasil. Na prática, quais serão os efeitos desta mudança nos costumes da população? 

Depende do tipo de evangelismo que se implante. Existe evangélicos de uma experiência religiosa muito profunda e é admirável como tentam viver o evangelho. Não é uma pregação em vista do dinheiro ou do inferno do pecado, mas uma pregação que visa realmente entender Jesus como centro da vida da pessoa humana. 

Vai depender muito disso. Hoje temos vários evangélicos bem preparados que têm feito críticas muito fortes no sentido de que tipo de evangelização que se está a fazer. Espero que continuemos como uma democracia aberta e com um espaço onde se possa dialogar. Espero que continuemos um espaço de fraternidade. Podemos ter expressões religiosas diferentes, mas continuamos com respeito. 

Espero que no futuro haja respeito pelas religiões afro e que nós todos tenhamos a possibilidade de aprofundar a nossa fé. Seguir Jesus não é uma ideologia. Segui-lo é viver o reino de Deus. Não tenho tanta preocupação com o número de católicos, me preocupo que vivamos com profundidade essa fé. Jamais deixamos de acolher as pessoas necessitadas e que sejamos sempre abertos à pessoa do outro.

O senhor teme que algumas denominações evangélicas não tenham um amadurecimento religioso?

Acho que falta uma maturidade religiosa. Uma visão mais profunda do evangelho, da mensagem que Jesus nos deixou com a sua vida, morte e ressurreição. Quando ouço algumas pregações através do rádio você fica meio espantado de como sabem mais que Jesus e fazem mais milagres que Jesus. 

Mais uma vez é uma questão de que tipo de evangelho estamos pregando. Não é uma crítica que estou fazendo. É uma maneira de nós como católicos vivermos melhor e mais profundamente a nossa fé. É isso que me interessa como arcebispo. 

Na semana passada, o Banco Central manteve pela quinta vez a taxa de juros em 13,75%. O presidente tem criticado a medida. Com o juro nesse patamar, o crédito fica mais caro obrigando a população a consumir menos. A elevação dos juros propicia o endividamento e a miséria no país?

Não sou economista e não entendo de economia, mas vivo no meio do povo. A sensação que você tem quando mantém os juros tão altos é quem está ganhando com isso. É a periferia? É o pobre que está ganhando com isso? Com um juro assim as empresas podem investir para ter mais emprego? Ou as pessoas que têm o seu pequeno negócio podem investir com um juro tão alto? 

Esses juros estão favorecendo a quem? Uma vez que existe uma dívida do estado e que essa dívida está com os bancos. Não existem respostas porque as críticas são feitas. Existe alguma justificativa para isso? 

Até hoje o presidente do Banco Central não deu nenhuma justificativa. Sempre a justificativa é por causa da pressão da inflação. São respostas que o Banco Central não nos dá. Tenho pouca sensação de que o Banco Central está a serviço da população do Brasil. Acho que atualmente o Banco Central está a serviço do mercado financeiro. 

Mas o BC se diz autônomo… 

Isso  é pior ainda. Deveria ser autônomo a favor de quem? Da população brasileira. Então, deveria ter autonomia para não ficar no jogo político. O Banco Central dos EUA não entra no jogo político. Mas aqui com tudo que se faz se entra na política. 

A licença concedida pelo governo do ex-presidente Bolsonaro para pavimentação do trecho do meio da BR-319 deve ser revista pela ministra do Meio Ambiente, Mariana Silva. O que o senhor pensa sobre a repavimentação dessa rodovia federal? 

Onde o asfalto chega, a destruição acompanha. Sou testemunha disso. A BR no Mato Grosso que corta a prelazia de São Félix do Araguaia onde fui bispo passava por dentro da terra indígena. Atuava por fora para preservar a terra indígena. Na época insisti para que não passasse asfalto porque era nítido a destruição do meio ambiente. Invasão e destruição da terra indígena.

Os indígenas não precisam de mais destruição. Precisam hoje de proteção. Não existe garantia nenhuma de que essa terra será preservada. Como fazer não saberia porque até hoje não entrei na discussão e nem no mérito.

A população indignada com a violência normaliza o estado medieval das prisões no país. É possível conscientizar o público de que essa abordagem não é a ideal? O que a igreja tem feito para fomentar esse debate? 

Acho que está na hora de mudarmos a nossa educação. Qual é a possibilidade de um jovem na vida hoje? Qual é a perspectiva que ele tem? Mesmo as pessoas que têm mais possibilidade econômica. Qual é o horário de leitura que é dado hoje? Quem tem bastante dinheiro ainda pode se livrar rapidamente das prisões. Mas as nossas prisões estão abarrotadas de gente que nunca chegou diante do juiz. Isso é gravíssimo. E não existe nenhum respeito pela pessoa humana e a grande maioria dessas pessoas são jovens e negras. 

Não é questão de apenas repensar a cadeia, mas também de repensar a nossa mentalidade. O nosso modo de pensar, de ser. Precisa mudar muita coisa. Nos EUA, há exemplos clássicos que ficaram 30 anos na cadeia e não tinham matado ninguém, mas porque era negro. 

Aqui no Brasil não é exceção. Quando vamos ter um sistema jurídico que as pessoas terão acesso ao juiz? Penso também a respeito de qual cultura e pensamento temos em relação a vida humana. É estarrecedor a quantidade de pessoas que estão na cadeia já há muito tempo e nunca foram julgadas. Alguma coisa está errada no nosso sistema.

Existe a mentalidade de querer colocar para longe aquelas pessoas que são problemáticas. A expressão superlotada para as nossas cadeias ainda é bastante agradável dado o número de pessoas. Considero muito sério a privatização de nossas cadeias. O estado se eximiu da sua obrigação. Existem algumas tentativas bem sucedidas, por exemplo a profissionalização de quem está condenado. Ele tem perspectiva. A pastoral carcerária tem feito um trabalho belíssimo. Cada vez mais está tendo dificuldade de entrar dentro das prisões. Graças a Deus está terminando a revista vexatória, mas eu me recusei entrar uma vez por causa disso.