Pesquisa mostra que taxa de CO2 na atmosfera está estabilizada
Publicada na Nature Communications, pesquisa mostra que as taxas continuam aumentando, porém, houve uma redução do aumento em 2,2% por ano
Na semana em que se discute soluções para mitigação do aquecimento global, na Conferência do Clima (COP 22) em Marrakesh, no Marrocos, uma pesquisa apontou que a taxa de CO2 na atmosfera, um dos gases de efeito estufa (GEE) estabilizou nos últimos anos por conta das florestas preservadas. Porém, especialistas dizem que não é o suficiente, principalmente se levar em consideração que, de 2014 para o ano passado, o desmatamento na Amazônia Legal teve um aumento de 24%.
Os dados de desmatamento são do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes). Já a pesquisa publicada na Nature Communications mostra que as taxas continuam aumentando, porém, houve uma redução do aumento em 2,2% por ano entre 2002 e 2014. De acordo com o metereologista Francis Wagner, coordenador do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre (Labclim) da Escola Superior de Tecnologia (EST-UEA), a estabilização da concentração do CO2 deve-se em parte a absorção do excesso do carbono da atmosfera realizado pelas florestas tropicais e também pelos oceanos. “Ambos têm papel fundamental remoção dos gases do efeito estufa de origem antrópica”.
Segundo o pesquisador, o papel das florestas é de absorver o excesso de carbono contido na atmosfera e com isso regular o clima em escala global. No entanto, não é o suficiente para conter o aquecimento global. “Os governos em escala global devem elaborar ações eficazes de redução da emissões dos gases do efeito estufa (combustíveis fósseis, desmatamento e queimadas). Isso deve-se acontecer por meio de mudanças em nossa forma de consumo e produção”.
Para ele, é preciso que o cidadão repense a forma de consumo, pois, na contramão das florestas que têm cumprido o papel de reter CO2, a humanidade têm abusado dos recursos naturais. “Retirando da natureza ou do meio ambiente recursos numa taxa tão elevada, não dá tempo da mesma recuperar-se. Essa forma de desenvolvimento é insustentável para o planeta”.
O problema do desmatamento na Amazônia é grave, pois de acordo com Wagner, a floresta amazônica também desempenha um papel importante nos balanços globais de carbono e água entre a superfície e a atmosfera. “Medidas recentes realizadas durante o Experimento de Grande Escala da Biosfera Atmosfera na Amazônia (LBA) indicam forte tendência de que as florestas não perturbadas da Amazônia funcionam como pequenos sumidouros do excesso de dióxido de carbono da atmosfera, particularmente em áreas de solos mais férteis e estações secas mais curtas na Amazônia Ocidental”, frisou.
Outro aspecto importante, conforme ressalta o meteorologista, é em relação ao papel da floresta no balanço de umidade em escalas local e regional. “No presente, a bacia amazônica comporta-se como um sumidouro de umidade da atmosfera, recebendo vapor d’água tanto da floresta tropical por meio da intensa reciclagem de água, quanto do transporte de umidade proveniente do oceano Atlântico tropical”.
Ele completa que, no contexto da circulação regional, a floresta amazônica constitui-se uma fonte de umidade para as regiões central e sudeste do Brasil, desempenhando papel importante na precipitação sobre essas regiões.
Alerta
De acordo o físico Paulo Artaxo, membro do do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, o acordo de Paris é absolutamente estratégico na redução das emissões de GEE, embora ainda seja insuficiente pra conseguir estabilizar as emissões.“Basicamente é um acordo extremamente amplo, importante e que pode reduzir as emissões de GEE entre 30 a 40% globalmente falando, mas é preciso fazer mais”.
Ele cita que para que tenhamos o aumento da temperatura máxima da ordem de 2 graus centígrados, é necessário uma redução da ordem de 70 a 80% das emissões atuais. “Portanto teremos que nas próximas negociações reduzir essas emissões pra pelo menos o dobro do comprometimento inicial de cada país, inclusive do próprio Brasil”.
Ele comenta que a meta assumida pelo Brasil, de atingir o desmatamento ilegal zero até 2030 é uma boa estratégia, mas também é necessário mudar toda a matriz energética do país, trocando as hidrelétricas e termelétricas para energias renováveis como a solar e eólica. “O país tem um potencial enorme e a grande lição de casa do Brasil será alterar a matriz energética”.
Sobre a estabilização de CO2 na atmosfera, Artaxo explica que já começa a se perceber a redução nas taxas, o que é muito positivo. “Entretanto, é importante citar que com todos os compromissos firmados, a temperatura ainda vai aumentar cerca de 3 a 3 graus e meio, o que é muito para um ecossistema frágil, como o amazônico”.
Ameaça
Enquanto acontece a Conferência do Clima (COP 22) no Marrocos, Artaxo, que é referência em estudos de mudanças climáticas, avalia que a recente eleição do presidente Donald Trump, financiada pela indústria do carvão e energia suja nos Estados Unidos, pode trazer problemas com a implementação do acordo de Paris. “Entretanto a competividade mundial em relação a diminuição do preço das energias alternativas tais como solar e eólica estão fazendo com que as queimas de energia fósseis e nuclear se tornem economicamente inviáveis, o que é muito positivo do ponto de vista economico”.
Conferência
Na Conferência do Clima do ano passado, realizada em Paris, a meta assumida pelo País frente ao aquecimento global é de reduzir 37% das emissões de carbono até 2025, com indicativo de chegar ao corte de 43% em 2030. Sobre o desmatamento ilegal, o objetivo é zerar até 2030. Na conferência, representantes de mais de 190 países negociam os detalhes do pacto em que se comprometem a reduzir as emissões de gases de efeito estufa.