Pesquisa sobre a copaíba procura confirmar a importância da medicina cabocla
Projeto de pesquisa fomentado pela Fapeam, por professores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), está sendo realizado com substâncias isoladas do famoso óleo
Um projeto de pesquisa do óleo de copaíba, que está sendo realizado por cientistas amazonenses, procura confirmar o que a população já sabe de geração a geração: que o composto tem propriedades medicinais para ser um importante anti-inflamatório.
Fomentado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), por meio do programa de Programa de Apoio à Núcleos Emergentes de Pesquisa (Pronem), o trabalho pioneiro está sendo realizado com substâncias isoladas do óleo das árvores do gênero Copaifera (Caesalpiniaceae, Leguminosae) de forma que os compostos sejam avaliados como agentes anti-inflamatórios de forma isolada. O projeto de pesquisa é dos professores universitários Emerson Lima e Valdir Veiga Júnior, ambos da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
Se entre os cientistas e pesquisadores os benefícios ainda precisam de comprovação científica, entre a população a copaíba e outros óleos, além de ervas medicinais, sementes e outros produtos naturais já servem, há anos, como a cura para diversos males do corpo… e da alma.
Diariamente, por exemplo, milhares de pessoas se deslocam para locais como o Mercado Municipal Adolpho Lisboa, o tradicional “Mercadão”, em busca da medicina tradicional encontrada nos boxes dos remédios caseiros. Lá, além da copaíba, encontram-se ervas e outros ingredientes para chás e banhos, entre outras utilidades.
No local, há vendedoras tradicionais como Judith Braga Formoso, de 80 anos de idade e que comercializa a copaíba e outros remédios caseiros desde a década de 1960.
“A copaíba é boa para baques e até para reumatismo, assim como a andiroba. Se quiser beber, é bom com mel de abelha, quando a pessoa está com aquela gripe muito forte”, orienta ela. Uma curiosa e tradicional “terapia” passada de avós para filhos, e conhecida como “brocação”, é encharcar um pedaço de algodão no óleo da copaíba e introduzir com o dedo na garganta inflamada do doente.
“Aqui temos ervas medicinais como a cidreira, mastruz, hortelâzinho, arruda, catinga-de-mulata, mangarataia, jucá e outras. O jucá, por exemplo, você coloca na água e é bom para baques e como expectorante. O pessoal compra de tudo”, orienta a vendedora, do auto da sua experiência.
“Aqui representa tudo para mim. É a minha vida, daqui que eu vivo, que tiro meu sustento”, declara a manauense, que é viúva e não teve filhos. Em seu boxe, ela atendeu durante a entrevista a dona de casa Edilane da Silva, que procurava para o seu filho de cinco meses que estava com catapora.
“Pode dar o chá da folha seca do sabugueiro para o seu filho. E não é pra fazer forte: faz fraquinho e vai dando colherzinhas de chá pra ele”, ensinou dona Judith para a mãe, que de um semblante ansioso, passou para uma fisionomia mais calma após a orientação “caseira”.
Frase
“Acho tarde a pesquisa sobre a copaíba, pois há muito tempo os indígenas não têm médicos e se cuidam pela natureza” (Alberto Matos, comerciante)
Estudo é pioneiro, diz mestre
Segundo o professor universitário Emerson Lima, o projeto de pesquisa do óleo da copaíba consiste em isolar substâncias do produto natural em escalas de gramas e fazer uma modificação química nesses compostos. O projeto rendeu até uma primeira publicação em revista internacional (Molecules 2015, 20(4), 6194-6210; doi: 10.3390/molecules20046194).
“Nós isolamos essas substâncias e fazemos as modificações estruturais nas moléculas, visando a síntese de novas moléculas mais ativas do que as naturais. Vislumbramos estudar a atividade anti-inflamatória em modelos, primeiramente, “in vitro” – processo feito normalmente em cultura de células – para verificar esse potencial e depois faremos os testes em vivos, utilizando animais em laboratórios”, explicou Lima.
Os testes em animais fazem parte da segunda etapa do estudo e a aplicação será feita em casos de artrite – inflamação de alguma articulação – para analisar a ação de cura desse processo. As substâncias mais ativas da copaíba, detectadas na primeira etapa, é que serão utilizadas nos testes.
Para Emerson, o estudo traz uma enorme vantagem para a área de pesquisas no Estado, visto que é um estudo pioneiro, utilizando uma abordagem multidisciplinar e pode testar, assim, um grande número de compostos, com grande possibilidade de encontrar substâncias ativas.
De acordo com o pesquisador, os primeiros resultados da segunda fase do estudo já estão prontos e apontam dados bastante positivos.
O objetivo final do projeto de pesquisa é gerar patentes e utilizar o resultado do estudo na área farmacêutica e medicinal. “O que nós queremos é incentivar outros pesquisadores a avançarem em estudos nessa área, mostrando que a Amazônia é rica em matérias-primas que podem ser manipuladas para o uso farmacêutico e medicinal, trazendo benefícios para a população”, disse ele.