A letra escarlate
Como costuma acontecer, é possível que nós, procedentes de países subdesenvolvidos, sejamos insalubres e pestilentos por um bom tempo
Eu conheci a versão para o cinema do famoso livro de Hawthorne. ‘A letra escarlate’ se passa em Salem, uma cidade americana colonizada por ingleses puritanos. A mulher que havia traído o marido foi obrigada pelo clero, enquanto circulava pela cidade, a usar a letra A bordada em vermelho, na roupa. Tratava-se de uma forma de expor, para sempre, uma mulher adúltera.
No início da pandemia de COVID-19, em Manaus, os primeiros casos foram diagnosticados em viajantes de classe média alta. Condomínios exibiram no hall de entrada ou nos grupos virtuais os nomes dos infectados. Não havia qualquer preocupação com a saúde ou com o sigilo dos pacientes. Num momento sem muitas opções de diagnóstico, o exame era executado apenas pela equipe de um laboratório público de referência. Para evitar o deslocamento dos suspeitos pela cidade, veículos identificados coletavam amostras em domicílio. O carro parado à frente dos luxuosos residenciais era suficiente para denunciar os infectados, que por pouco fugiram de ter uma letra escarlate bordada em suas vestes.
Denunciar a presença de doenças infectocontagiosas não é uma novidade; na realidade, são formas de proteção coletiva e uma tentativa frustrada de conter o espalhamento. Na Idade Média, leprosos deveriam passar ao largo das grandes cidades, e quando se aproximassem delas, deveriam soar uma matraca, cujo barulho os anunciaria imediatamente, afastando de perto as pessoas sadias. Barcos contendo coléricos hasteavam uma bandeira negra, e ninguém mais embarcava.
Judeus, no Antigo Egito, pintavam as portas de suas casas com o sangue de um cordeiro imolado. Ali, a peste não mataria seus primogênitos. Em outro momento, eles eram tatuados nos campos de concentração e, caso fugissem, seriam facilmente identificados pelos nazistas. Por ocasião da peste bubônica, identificar com um X a porta das casas dos contaminados era uma forma de evitar contato. Pouco se sabia sobre a forma de transmissão, e a importância das pulgas dos ratos.
O acesso ao sistema de saúde também tem suas marcas e seus símbolos. No Amazonas, em muitas comunidades remotas, sem um sistema de transporte eficaz, pessoas com febre deixam um pano vermelho na entrada de suas casas. Agentes de saúde que passam por ali, diariamente, em suas motocicletas, param, quando veem a sinalização escarlate, para coletar o exame que diagnostica a malária.
Num mundo já marcado pelo racismo estrutural, fronteiras internacionais já se preparam para a retomada dos viajantes. Não apenas a cor das pessoas será percebida, mas se estão em posse de um cartão de vacina. Antes, os países já tinham o hábito de barrar viajantes procedentes dos trópicos, que não comprovassem a vacina contra a febre amarela. Agora, em um cartão ainda mais valioso, deverá constar o registro das doses da vacina contra a COVID-19, para que as pessoas circulem livremente pelo globo.
Como tudo criado pelo homem, deverão surgir registros de nossas categorias sociais: cartões Elite Plus com vacinas mais modernas, e cartões menos nobres com vacinas que conferem menor proteção. Companhias aéreas, alfândegas e controles migratórios terão seu trabalho redobrado, controlando e fiscalizando não apenas passaportes e vistos, mas carteiras de vacinação falsificadas. Não temos ainda nenhuma ideia de se usaremos um chip intradérmico, uma tatuagem no braço, ou um cartão de vacina internacional emitido em papel infraudável, por alguma instituição de reputação ilibada.
Sem algo que nos identifique a todos como de zero risco para o espalhamento de novas variantes, estarão comprometidas as relações diplomáticas. Esse será nosso novo normal. Em recente viagem a outro estado, um amigo de longa data recusou-se terminantemente a se encontrar comigo. Como se eu tivesse uma invisível letra escarlate no peito, minha procedência de Manaus me fez insalubre. Aqui se originou, até o momento, a variante mais infecciosa do novo coronavírus. Como costuma acontecer, é possível que nós, procedentes de países subdesenvolvidos, sejamos insalubres e pestilentos por um bom tempo. Durante a ditadura militar brasileira, o slogan era: ‘Brasil: ame-o ou deixe-o’. Nos dias atuais, só nos resta amá-lo.