A limpeza dos igarapés
Há um tipo de lixo que não se deve reciclar: charlatões, falsos profetas, ignorantes que emitem opiniões sobre o que desconhecem
Obscurecida pela maior tragédia sanitária da nossa época, que fez Manaus ser notícia do Le Monde e da Deutsche Welle, a maior cheia do Rio Negro atingiu a marca recorde de 30 metros, na medição do Roadway, desde 1902. Negacionistas das mudanças climáticas no planeta dirão que durante a longa existência do grande rio, certamente já houve maiores cheias.
O certo é que o centro de Manaus foi fundado sem a expectativa de tamanho aumento das águas, o que fez com que casarões e monumentos históricos tivessem seus pisos submersos, lembrando a Acqua Alta de Veneza. A prefeitura instalou rapidamente marombas a céu aberto para a circulação de pedestres, fazendo a paisagem ainda mais parecida com a Praça de São Marcos.
Uma imagem aparentemente deslumbrante, de águas altas, escondia sacolas plásticas, latas, garrafas pet e todo tipo de lixo que a população malcriada insiste em descartar. Naquele momento mágico apenas um espelho de águas negras refletia o sol forte do verão amazônico. No seu livro Climatologia Médica do Estado do Amazonas, Hermenegildo Campos facilitou nossas referências sobre o tempo, e escreveu que o rio está mais cheio na Noite de São João e mais vazio na Noite de Natal. Não foi diferente em 2021.
Tradicionais festas de São João, ainda proibidas pela incerteza da Covid-19, foram trocadas por visitas de famílias inteiras ao centro da cidade, a fim de registrar o momento. Alguns se aventuraram inclusive a tomar banho onde outrora circulavam os turistas da Zona Franca de Manaus.
A mesma cheia que encantou os olhos dos mais ingênuos também escondeu lixo, fome, desabrigo para milhares de famílias, e a incerteza sobre a ação dos eventos extremos no abastecimento hídrico da agricultura nacional. Matérias jornalísticas, fotos de família e documentários negligenciaram tudo o que estava por baixo das águas escuras. Sem praias aparentes, donos de luxuosas lanchas lamentaram.
Mas agora o excesso de águas corre, em tempo, para o mar, e vemos sob ele o volume de trabalho e de reconstrução que vem pela frente. Limpar a sujeira deixada pela maior cheia da nossa existência não será tarefa fácil. Uma brisa nova chegou à cidade, e já fazemos, pari passo, planos de retomar nossa rotina, nossos já vencidos planos de 2019 e nossa economia.
Depois da tormenta é tempo de recalcularmos tudo, replanejar o que queremos da vida, contar nossos sobreviventes e dar atenção e afeto a eles. Como o gps dentro de um carro perdido, precisaremos refazer uma nova rota que nos leve aos mesmos ou a outros lugares. É hora de limparmos a sujeira que ficou dentro de nós, nossas sequelas físicas e psicológicas. É hora de cuidarmos dos nossos filhos, limpando suas margens com a mesma determinação que teremos de ter ao limpar os leitos dos igarapés.
Nesta grande e necessária faxina, chegou o momento de nos livrarmos das inutilidades que aprendemos a julgar melhor, com os novos valores trazidos pela pandemia. Precisaremos rever o papel das instituições, decidir quem se portou bem e quem se portou mal, na crise. É hora de limpar o leito dos nossos rios dos charlatões, dos falsos profetas, dos ignorantes que emitiram com veemência opiniões sobre o que desconheciam. Este tipo de lixo não se recicla.
Como prevemos, depois de uma grande cheia, vem por aí uma grande vazante. As fortunas destruídas e as construídas durante a pandemia reorganizarão a sociedade, como nunca vimos. Felizes serão aqueles que investiram em plantar na várzea, aproveitando a matéria orgânica fértil que as águas bravas trouxeram da nascente.
É árdua a tarefa de esconder toneladas de lixo e de mortos, depois de tudo isso. Eu tento, aos poucos, sair da minha Quarentena no Rio Negro, mas é ela que não sai mais de mim. Mas sinto um cheiro diferente no ar, um ar fresco e renovado.