Manaus seg, 19 out
A Crítica
Opinião

COVID Experience

Após mais de um ano de pandemia, decidi fazer minha própria previsão: assim que tudo isto passar, teremos um grande museu temático.

Publicado em 10/07/2021 às 12h27 · Atualizado em 24/03/2022 às 22h49
COVID Experience

A maioria das pessoas que fez projeções sobre a pandemia de COVID-19 errou. Quase nenhuma profecia se cumpriu, e muitos ‘expertos’ tiveram de rever suas falas, contrariadas pela realidade de uma tragédia sem precedentes.

Mas depois de mais de um ano de pandemia, decidi fazer minha própria previsão. Prevejo que assim que tudo isto passar, teremos um grande museu temático sobre a pandemia. Não sei ainda ao certo se será em Nova York, Milão ou Manaus. Famílias inteiras farão uma verdadeira peregrinação a esta atração turística contemporânea, de reputação mundial, que deverá perdurar por décadas após o fim da tragédia.

Já nas longas filas, perceberemos algo inusitado. Os funcionários do museu organizam as pessoas com uma distância de pelo menos dois metros. Distribuem máscaras e borrifam álcool nas mãos de todos os clientes. As crianças acham aquilo sensacional e se divertem. Cada minuto da experiência faz valer o preço do ingresso.

Em uma antessala, uma gravação solene avisa a todos que as imagens são fortes, e que pessoas que, porventura, tenham vivido na época da pandemia, devem ter cuidado com as lembranças. Por um túnel, as pessoas passam por uma sala escura. Escuta-se o barulho de morcegos voando. Chegam a uma réplica do Mercado de Wuhan, na China. Os visitantes se misturam a bonecos em tamanho real, que falam em mandarim. Ouve-se o som de uma sirene. Passam então a uma sala que parece ser uma enfermaria improvisada, lotada. Profissionais de saúde desesperados correm de um lado para outro. Pacientes agonizando estão deitados de bruços, dentro de cápsulas.

Mais adiante, visitantes podem escolher a sala da Itália, a sala dos Estados Unidos, ou a sala do Brasil. Em diferentes línguas, os bonecos animados gesticulam, se expressam com angústia e dão a real sensação do desespero que deve ter sido à época. Mais adiante, chega-se a um cemitério. Caixões empilhados disputam as covas abertas, às pressas, por uma retroescavadeira. Nas paredes, televisores reprisam as reportagens mais emocionantes de redes de comunicação de todo o mundo. Em pequenas salas, as famílias podem simular como teria sido o isolamento social, quando não podiam sair de suas casas. Tudo é uma diversão de férias para os pequenos visitantes que vieram de tão longe. Há excursões escolares também, com centenas de crianças acompanhadas de seus professores. 

Uma das salas mais visitadas é a do museu de cera, com réplicas de líderes globais que se recusaram a aceitar a pandemia, causando ainda mais dor e sofrimento humano. A sala é um prato cheio para os estudantes que se  interessam por história e por política. Aquelas nações negacionistas tiveram um rumo diferente no pós-pandemia.

Todos se reencontram em um grande auditório, recebem óculos de realidade virtual e sentam-se para assistir um curto filme de quinze minutos de duração. Com uma trilha sonora emocionante, as pessoas se lembram dos cientistas que descobriram a origem do vírus, os cientistas perseguidos por seus governos e os que desenvolveram as primeiras vacinas. Uma verdade catarse toma conta da sala de projeção quando as vacinas começam a ser aplicadas. Muitos se emocionam e choram. A retomada da vida ao ar livre e da economia é sincronizada com uma canção italiana: ‘Andrà tutto bene’, um sucesso da época, agora na voz de uma famosa cantora pop.

Finda a projeção, todos saem em direção à loja do museu. Ali, uma verdadeira coleção de livros sobre virologia, história, medicina, ecologia, imunologia, além de pôsteres com as melhores fotos da pandemia. Pequenos bonecos de pelúcia em formato de coronavírus e seringas de vacina de brinquedo vendem como água. Perto do caixa, uma gôndola com caixas de hidroxicloroquina, sendo que no lugar dos comprimidos, no blister, há jujubas brancas açucaradas, para as crianças. Considerada a panaceia para a cura da COVID-19 em muitos países, a medicação foi amplamente usada, logo no início da pandemia. 

Um casal de adolescentes deixa o museu. Jogam as máscaras na lixeira e comentam sobre a experiência que os sensibilizou: ‘Deve ser muito louco ter vivido isso tudo, né?’

A arte que ilustra este post é de Dan Cretu para o espaço virtual Covid Art Museum