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A Crítica
Opinião

De ratos e de homens

Não fosse pela nossa mania em enxergar padrões, não teríamos descoberto a volta do planeta em torno do sol, não saberíamos prever as estações do ano, eclipses lunares ou solares

Publicado em 24/07/2021 às 14h58 · Atualizado em 24/03/2022 às 22h49
De ratos e de homens
Foto: Reprodução

Somos treinados para reconhecer padrões e semelhanças. Olhando o céu à noite, por noites a fio, percebemos como os astros se movem, e que existe um padrão celeste a cada 365 dias. Não fosse pela nossa mania em enxergar padrões, não teríamos descoberto a volta do planeta em torno do sol, não saberíamos prever as estações do ano, eclipses lunares ou solares.

Como médicos, lemos nos livros os padrões de uma doença, e quando ela se apresenta, em um de nossos pacientes, fazemos o diagnóstico, não por mágica, mas porque as doenças costumam se manifestar segundo um mesmo padrão clínico, resultado da ação de um agente causal, que pode ser um vírus, uma bactéria, um protozoário, radiações, venenos. Mas os pacientes podem reagir de formas diferentes a uma agressão, porque não são idênticos. Diferentes de clones, irmãos gêmeos, beagles ou ratos de laboratório de uma mesma linhagem, os seres vivos sofrem constantes combinações e mutações genéticas, o que lhes confere diversidade.

Com o surgimento da COVID-19, seguindo nossos instintos humanos, procuramos os padrões de como esta nova doença se manifestava. E para a maioria da população desesperada, mas amplamente conectada pela internet, ficou difícil entender por que algumas pessoas morriam e outras se infectavam com o mesmo vírus, sem sentir absolutamente nada. Para outras tantas, uma infecção leve.

Pouco se falou sobre a imunidade inata que muitos têm ao vírus. Ou seja, mesmo que vários infectados espirrem na cara de alguns, eles nunca ficarão doentes. Estamos em busca das qualidades genéticas que estes seres naturalmente imunes ao vírus possuem, como se tivessem nascido já vacinados. Não sabemos quem são eles, mas sabemos que estão por toda parte. 

Em biologia, pelas nossas naturais diferenças, uma droga não funciona em 100% das pessoas. Uma doença não mata 100% das suas vítimas, e ninguém estará 100% protegido ou vulnerável a um agente infeccioso. Trata-se de uma área não exata, e com muitos desvios em torno dos padrões, que nossa mente insiste em buscar. 

Algumas pessoas, mesmo dentro das cidades medievais, empesteadas de pulgas de ratos infectados, não desenvolveram a peste. Mais tarde, verificamos que estas pessoas tinham a mutação de um receptor usado pela bactéria, ao entrar em nossas células. A mesma mutação, por curiosidade, impede, até hoje, que o HIV nos infecte. Isso explica, em parte, porque algumas pessoas, nunca se infectam pelo vírus, ainda que tenham comportamento sexual de altíssimo risco, mesmo sem usar camisinha. Essas pessoas podem acreditar que a Aids não existe. Há indivíduos com deficiências genéticas no sangue, como a anemia falciforme, que costumam ter muito menos malária. O câncer de pele, em negros, é menos comum, pelo excesso de melanina, que confere mais proteção, como se fosse um protetor solar impregnado na pele, de nascença. 

Pessoas que não se infectam pelo vírus que causa a COVID-19 precisam agradecer diariamente pela dádiva concedida, mas estas mesmas pessoas têm sido usadas como garotos propaganda de drogas milagrosas e outras futilidades. Quando alguém não adquire a doença, mesmo estando amplamente exposto, é prova apenas do melhoramento genético conferido por milênios de evolução da espécie. Quando alguém sugere ao compadre que se medique com uma droga profilática, ou com chá de jambu, desconhece por completo a genética do outro, e pode submetê-lo a uma morte cruel, pelo vírus implacável.

Em Bird Box, uma superprodução da Netflix, a personagem de Sandra Bullock descobriu que se não olhasse diretamente para o monstro que assolava a humanidade, permanecia imune ao seu efeito de autodestruição. Numa incrível fuga, ao lado de duas crianças, pelo rio, ela chegou a um asilo de pessoas com deficiência visual. Ali, como no mito da Medusa, o inimigo não causava danos aos cegos, que eram naturalmente protegidos.

Na COVID-19, a cegueira que nos impede de relembrar da biologia, tem sido, ao contrário, letal. Pensando que todos somos geneticamente idênticos, alguns se permitem participar de uma verdadeira roleta russa, em que a minoria que morre, infelizmente não terá a chance de se arrepender, um dia, de sua ignorância.

Marcus Lacerda é médico infectologista e pesquisador