Manaus sex, 23 out
A Crítica
Opinião

Mente sã, corpo são

Publicado em 25/06/2022 às 18h07
Imagem desfocada de um corredor de hospital
Foto: Divulgação

Sem se encontrar com outros clientes na antessala, meu paciente aflito aguardou ansioso o atendimento. Não quis fornecer muitos dados pessoais à secretária, que prontamente compreendeu que a ocasião exigia sigilo. Busquei-o na porta, como sempre faço há anos. Ele entrou cabisbaixo e se sentou à minha frente, com uma respiração constrangida. Tentei relaxar o momento solene e perguntei como eu podia ajudá-lo.

– Doutor, eu tive uma relação com uma moça há duas semanas, e de lá pra cá estou sentindo muitas coisas.

– Conte-me exatamente o quê.

– Estou com diarreia, perdi muito peso, apareceram caroços no meu pescoço e estou com placas brancasdentro da boca.

 Achei a combinação de queixas característica demais de um típico paciente com Aids, e por isso resolvi explorar a sua vida sexual. O paciente me confidenciou que era casado há cinco anos, que nunca havia traído a esposa e que antes do casamento havia feito um teste para HIV, que resultou negativo. Há duas semanas encontrou uma moça no trabalho, e entre uma conversa e outra, beijaram-se, e ela fez sexo oral nele. Alegou que todos os sintomas relatados na consulta começaram no dia seguinte à pequena malandragem. Perguntei dele se leu alguma coisa sobre HIV na internet e ele me confidenciou que sim, com um esboço de sorriso.

Depois de examiná-lo, e não encontrar nenhuma alteração digna de nota tentei explicar que os sintomas por ele relatados eram compatíveis com uma síndrome de imunodeficiência, que só se manifesta entre cinco e dez anos depois da infecção pelo vírus, e não no dia seguinte. Esclareci também que a chance de infecção após sexo oral é muito baixa, mas em todo caso solicitei exames para detectar eventual infecção não apenas pelo HIV, mas para outras infecções sexualmente transmissíveis.

Na semana seguinte o paciente retornou com os exames todos negativos, mas com queixas ainda mais elaboradas. Ele me confrontou com a informação de que poderia estar em uma janela imunológica e que o exame não detectou a infecção pelo HIV. Estava convencido de que tinha a infecção, apesar de minhas argumentações técnicas. Pedi então que ele fizesse um exame mais sensível, com possibilidade de detecção da infecção em fases bem iniciais.

 Como esperado, ele retornou na semana seguinte, pedindo urgência e foi o primeiro cliente a ser atendido. Trouxe novo exame que confirmou minha suspeita de que não estava infectado. Começou a chorar. Disse que sua vida acabou que tinha certeza de que estava infectado e que não sabia como contar à esposa. Referiu estar com falta de ar e com lesões arroxeadas nas costas, que obviamente inexistiam, na minha inspeção da pele.

Tentei acalmá-lo e explorar outras exposições sexuais que ele tenha tido vergonha de me confidenciar, mas me jurou que nada mais aconteceu. Olhei fixamente nos olhos dele e garanti que estava tudo bem. Ele foi embora mais sereno, mas não totalmente.

 Dois meses depois, o paciente retornou comigo, trazendo exames que havia realizado semanalmente para detectar a infecção pelo vírus: todos negativos. Ele não conseguia mais falar com a esposa, seu casamento estava em crise, não conseguia trabalhar, não dormia mais, não comia, estava visivelmente abatido e cansado. Foi hora então de persuadi-lo do seu real diagnóstico.

Expliquei que ele claramente não estava sabendo lidar com a relação fora do casamento, mas que precisava encerrar a investigação para infecções que não existiam. Até pelo risco de cair na mão de um profissional que acreditasse em uma doença física e o extorquisse ad eternum. Estava gastando recursos financeiros e tempo útil em uma fantasia que talvez conseguisse puni-lo suficientemente pelo erro cometido. É como se ter uma infecção não curável o fizesse se sentir ainda mais culpado. Foi preciso ser enérgico com ele, porque lia todo o conteúdo da internet e fabricava teorias sobre infecções tardias e outras bizarrices.

Encaminhei ele a um amigo psicólogo que o atendeu e me mantinha sempre informado sobre o grave distúrbio de ansiedade, que exigiu inclusive medicações. Desde então não o vi mais em meu consultório. A rigor, a ausência de notícias costuma ser boa notícia. Um ano depois, cruzei com ele na gôndola de um supermercado, sozinho. Ele se dirigiu a mim:

– Olá doutor, tudo bem?

– Sim, e você?

– Sim, estou finalmente em paz, obrigado por tudo.

 

Marcus Lacerda, médico infectologista e pesquisador