Outonos tristes
Nos olhos inconsolados dos familiares que faziam fila na porta dos fornecedores de oxigênio medicinal, vi o mesmo pânico dos americanos, em 2001
Era uma manhã fresca e ensolarada de outono. Eu saí cedo do alojamento da Marinha, em Bethesda, onde tinha um quarto amplo e confortável, desde julho. Pedalava cerca de trinta minutos por um atalho, passando pelo igarapé Rock Creek. As folhas já tinham começado a cair, e a mistura de cores ao longo do caminho premeditava um dia tranquilo em DC. Ann Stewart, minha supervisora, havia emprestado uma bicicleta da enteada, já gasta e cor de rosa. Era um meio de transporte gratuito e saudável, permitindo-me economizar alguns dólares do metrô até Silver Spring.
O prédio dos animais ficava ao lado do principal, construído com recursos obtidos pelo senador democrata Daniel Inouye, razão pela qual foi inaugurado com seu nome. Naquele dia, deixei minha mochila no escritório. Logo em seguida, fui até o setor dos primatas não humanos. Estávamos na semana de imunização de vários deles, usando uma nova proteína candidata à vacina contra a malária.
A sala onde ficavam era muito bem cuidada, com grama artificial dentro de cada gaiola, simulando a natureza de onde um dia saíram. No canto da sala, um aparelho de TV sempre ligado. Era uma forma de mantê-los entretidos, evitando a depressão ou a apatia. Cada macaco era contido ainda na jaula, e cuidadosamente anestesiado pelo veterinário responsável. Em poucos segundos, nocauteado, era retirado da jaula e levado até a sala ao lado, para receber a inoculação do imunizante em teste. Rapidamente eram coletadas amostras de sangue de sua veia femoral ou inguinal, e antes que reagisse, era devolvido à sua jaula, ainda desacordado. No desenvolvimento de uma vacina, chamamos isto de etapa pré-clínica, ou seja, antes dos testes em seres humanos.
Às 8h:46 eu retornei à sala para devolver um deles. Uma chamada da televisão noticiou um acidente. Anestesiei o seguinte e voltamos às 9h:10 para o biotério. A televisão exibiu uma manchete estranha: ‘Mais um avião colide contra prédio em Nova York’. Dois minutos depois, uma sirene estridente começou a soar nos corredores do pavilhão, pedindo nossa evacuação imediata. Trancamos as jaulas e saímos de maneira tensa, sem qualquer explicação.
Tive tempo apenas de pegar minha mochila na sala. O telefone fixo não completava a chamada que fiz para minha esposa no Brasil. Shannon, a colega de sala, disse-me que havia vários aviões perdidos no espaço aéreo americano, e que todas as repartições públicas estavam sob ameaça. Ali perto, um dos aviões já havia caído no Pentágono. A fofoca dos corredores era de que um dos aviões estava destinado a cair em cima do Instituto de Pesquisa do Exército Walter Reed, onde estávamos.
Saí dali com minha bicicleta, o que foi estratégico, porque o trânsito estava paralisado, com carros buzinando e pessoas com medo dentro deles. Duas horas depois cheguei à casa de uma amiga brasileira que morava na periferia da capital. Acreditamos estar em segurança ali. Como meu alojamento estava ao lado do Instituto Nacional de Saúde (NIH), era o último lugar em que eu queria estar.
Aquela foi a primeira vez que presenciei o terror coletivo e o medo do desconhecido, do improvável. Vinte anos depois, tive a mesma sensação quando vivi a falta de oxigênio e de leitos hospitalares em Manaus, durante a dura segunda onda de Covid-19 na cidade, causada por um vírus mutante, que nos contaminou a todos, numa velocidade nunca vista. Nos olhos inconsolados dos familiares que faziam fila na porta dos fornecedores de oxigênio medicinal, o mesmo pânico dos americanos, em 2001; uma sensação de morte e de insegurança.
Lá, quase 3000 mortes marcaram o início de uma luta contra o terrorismo. Aqui no Brasil, perdemos duzentas vezes mais vítimas do que o atentado às torres gêmeas. Não choramos com igual intensidade e nem sabemos contra o que lutar daqui para frente. Fomos anestesiados em nossas jaulas. Mortes são sempre relativas. Como ouvi na rua, certa vez, uma mulher disse à amiga que o sogro havia morrido. ‘Mas não foi Covid, foi?’, a outra retrucou. ‘Não, graças a Deus não morreu de Covid’.
A foto que ilustra esse texto foi tirada por Anthony Correia (AFP), nos arredores do World Trade Center em Setembro de 2001