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A Crítica
Opinião

Pra não dizer que não falei das flores

Por Marcus Lacerda, médico infectologista e pesquisador / Flores são o novo inimigo invisível... Estão para os hospitais assim como o voto eletrônico e as vacinas estão para o Brasil.

Publicado em 21/08/2021 às 11h55 · Atualizado em 24/03/2022 às 22h49
Pra não dizer que não falei das flores

Tereza, a mulher que me criou, estava internada no Hospital das Forças Armadas, em Brasília. No pós-operatório, levei para ela um vaso com flores. O guarda na porta me lançou um olhar reprochável e me obrigou a voltar com elas. Entrava sem flores ou não entrava. Minha filha nasceu em Manaus. A recém-avó, em Goiânia, mandou flores do campo para a filha puérpera. Fui chamado à recepção do hospital para receber a encomenda, mas fui obrigado a jogar o ramalhete na lata do lixo, após discussão insolúvel.

No Natal de 2009, um artigo inusitado, publicado no famoso Jornal Médico Britânico, por um antropólogo médico, fez um debate honesto sobre a ausência das flores nos hospitais. O seu crescente desaparecimento, no sinistro ambiente nosocomial, tem causado constrangimento em pacientes e seus visitantes, em todo o mundo.

As razões frequentemente alegadas vão desde o risco de lesões causadas por cacos de vidro, depleção de oxigênio pelas flores em decomposição, ou mesmo a proteção de equipamentos de última geração dos respingos de água. Alguns relatam o esforço na troca de água dos vasos e a necessidade de descarte das flores passadas, em ambiente já carente de profissionais.

Eventualmente, as razões apontadas pelos profissionais se referem ao aumento do risco de infecção por causa da presença das plantas. Apesar de, naturalmente, carrearem vírus e bactérias, as evidências de que são prejudiciais à saúde humana são quase nulas.

A normativa da ANVISA se refere ao tema como “isolamento protetor modificado”. E logo em seguida explica: tem como objetivo impedir que os germes alcancem pacientes imunodeprimidos. A revisão da literatura não mostra bem isso, que parece ser mais um inconveniente e um excesso de zelo, do que propriamente um risco real. Em outras palavras, não existe qualquer motivo comprovado para que as flores tenham sido abandonadas, quando comparadas ao benefício de aliviar a dor das pessoas.

Desde 2020, quase 600.000 brasileiros morreram com Covid-19, muitos deles em leitos solitários, e alguns em leitos de UTI, rodeados por máquinas e pessoas desconhecidas, mascaradas. Visitas foram proibidas pelo alto risco de infecção. Equipe de saúde sensível conectava os que ainda estavam conscientes, com suas famílias, usando chamadas em celulares e tablets. Humanizar os covidários, como eram chamadas as enfermarias de pacientes infectados pelo vírus, foi tarefa dura e que reinventou a caridade, em tempos “desiluminados”.

Nem sempre o que vemos como errado merece ser banido ou criminalizado. A organização do espaço hospitalar parece ser muito mais guiada pelo aspecto de limpeza do que pela limpeza em si. Um hospital verdadeiramente seguro para o paciente é aquele em que os protocolos de desinfecção são cumpridos à risca, e em que a lavagem de mãos acontece independentemente da mão estar com a sujidade aparente. Há clínicas de estética com lindo aspecto, mas que levam a graves infecções após procedimentos realizados sem o devido cuidado.

Flores fazem parte, há séculos, do mito do cuidado, do carinho e do amor. Flores trazem, para o quarto de um moribundo, um fragmento do jardim por onde ele possivelmente nunca mais poderá caminhar. Pacientes com Covid-19 que não conseguem cheirar o aroma das flores já são, por isso, infelizes. Deixá-los sem vê-las é crime hediondo e inafiançável. É preciso que até o ministro da economia reflita sobre como os pequenos quiosques, no hall dos hospitais, faliram e tiveram de fechar suas portas, contribuindo para a redução do PIB.

Flores são o novo inimigo invisível, contra as quais não há provas de risco real. As flores estão para os hospitais assim como o voto eletrônico e as vacinas estão para o Brasil. Há excesso de temor sobre riscos potenciais, em contraposição ao desinteresse pelos evidentes benefícios que proporcionam.

A canção censurada de Geraldo Vandré, de 1968, nunca foi tão atual: ‘Há soldados armados, amados ou não, quase todos perdidos de armas na mão … Pelas ruas marchando indecisos cordões, ainda fazem da flor seu mais forte refrão, e acreditam nas flores vencendo o canhão’.

A imagem que ilustra esta crônica foi retirada do flickr seumuniz