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A Crítica
Opinião

Severiano Mário Porto

Arquiteto deixou pra trás um Brasil que, como sua obra, está abandonado, sustentando seu passado glorioso com escoras inúteis e enferrujadas.

Publicado em 17/04/2021 às 12h31 · Atualizado em 24/03/2022 às 22h51
Severiano Mário Porto

Presidente Figueiredo é, junto com Apuí, um dos únicos dois municípios do Amazonas que não está à margem de um grande rio. A homenagem ao último presidente da ditadura militar foi uma estratégia do então Governador José Lindoso para atrair mais atenção federal para o estado. Separado de Novo Airão em 1981, por emenda constitucional, o primeiro prefeito tomou posse em 1983.

Saindo de Manaus, pela BR-174, rumo à Venezuela, são quase 100 km em uma linha reta, no meio de floresta tropical úmida, até a sede do município, cuja principal fonte de renda é o turismo. Trata-se de um lugar com grande número de lindas cachoeiras e cavernas abertas à visitação. Costuma-se dizer que os aviões entre Boa Vista e Manaus sobrevoam a rodovia e, em caso de pane, poderiam fazer um pouso de emergência.

Quase sem acostamento e postos de gasolina à beira do caminho, chegamos à entrada do município, onde vemos que, como uma Coca-Cola, a COVID-19 também alcançou cada rincão, mesmo no interior da Amazônia profunda. Uma barreira sanitária está em alerta, parando todos os veículos que chegam. Uma pequena mangueira borrifa um líquido esterilizante nos nossos pneus. Uma pessoa mede nossa temperatura e nos orienta que as cachoeiras estão fechadas aos domingos, dia de maior movimento dos turistas.

Índios Waimiri-Atroari estão recolhidos na reserva mais à frente da cidade. A loja de artesanatos regionais está fechada, assim como a loja que vende mel puro de abelha. Apenas o Café da Priscila tem algum movimento. O mercado de tapiocas não está em declínio. Da cidade, podemos viajar pela rodovia AM-240, que dá acesso à Vila de Balbina, onde residem os trabalhadores da usina hidrelétrica. Considerada um erro histórico da década de 1980, a usina provocou danos, com o represamento do Rio Uatumã, sem que produzisse quantidade suficiente de energia que compensasse o investimento financeiro e a perda ambiental.

Na estrada quase sem movimento, desprovida dos aventureiros de sempre, uma fazenda de orquídeas foi fechada por causa da pandemia. No Ramal da Morena, antigas vítimas da malária estão recolhidas, com medo da nova peste. À entrada da vila, mais uma barreira sanitária, com policiais mascarados. Alguns quilômetros a seguir, o centro de visitação ao peixe boi e outros animais vítimas da represa e da pesca ilegal está trancado.

Mais à frente, à direita, um ícone da ‘arquitetura da floresta’ se revela diante de nossos olhos. O Centro de Proteção Ambiental (CPA) é uma das obras mais conhecidas internacionalmente de Severiano Mário Porto, o arquiteto da Amazônia. Convidado pelo governador Arthur Cézar Reis, em 1965, o mineiro de Uberlândia se mudou para Manaus, onde fundiu sua formação acadêmica do Rio de Janeiro com os materiais e as necessidades dos habitantes do gigantesco bioma amazônico. Suas famosas obras em Manaus são os demolidos estádio Vivaldo Lima e o restaurante Chapéu de Palha, a sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus, o campus da Universidade Federal do Amazonas, a sede do Banco da Amazônia, a caixa d’água da Companhia de Saneamento do Amazonas, o Fórum de Justiça Henoch Reis, entre numerosas casas projetadas para amigos, e o antigo auditório da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, de quem o arquiteto era amigo pessoal.

Sua predileção pela palha e pela madeira o fez famoso e premiado internacionalmente. O CPA está fechado, com escoras de metal que apoiam as toras de madeira apodrecidas e sem manutenção. A palha que cobre o grande edifício serpenteado está gasta e não protege mais a parte de baixo, onde não se pode entrar para contemplar a genialidade do apoio pouco ortodoxo de vigas e pilares que imitam a construção de uma grande maloca.

Em dezembro último, Severiano Mário Porto, morto pela COVID-19, deixou de existir, em Niterói. Deixou pra trás um Brasil que, como sua obra, está abandonado, sustentando seu passado glorioso com escoras inúteis e enferrujadas. Como Severiano, precisaremos reinventar. Reinventar um país aos pedaços, mas sem usar escoras, sem arremedos, sem uma falsa sensação de que estamos cuidando mesmo dele.