A significância das palavras
As palavras são tão fundamentais e complexas que precisam ser estudadas, valorizadas, bem empregadas
Passei a semana viajando sobre a importância e a complexidade das palavras. Veja você, por exemplo, revólver, substantivo masculino que significa arma de fogo portátil, e revolver, verbo transitivo direto e intransitivo e pronominal que expressa a ideia de movimentar algo ou se movimentar, se escrevem iguais. A distinção fica por conta de um pequeno símbolo gráfico, o acento agudo, que faz toda a diferença. São homógrafos!
A acentuação e a pontuação, companheiras inseparáveis das palavras, estão perdendo importância há muito. Em tempos digitais estão na UTI: quase ninguém as emprega ou sabe empregar. Tudo é muito rápido para se preocupar com detalhes. Entretanto “por favor não, atire” é exatamente o oposto de “por favor não atire”. Pequenos detalhes que mudam completamente o significado. “O diabo mora nos detalhes” já nos alerta o provérbio alemão.
As palavras são universos muito delicados e multifacetados. Tomemos como exemplo a palavra “puta”. Só em escrevê-la aqui muitos já se sentem ofendidos…”como ele pode?”. Puta, substantivo feminino sinônimo e tratamento vulgar para prostituta, mulher que pratica sexo mediante remuneração financeira.
Puta é uma palavra ofensiva! Mas como pode alguém que lhe serve, que lhe presta o serviço dito “o mais antigo do mundo”, alguém que lhe proporciona prazer merecer uma ofensa? É uma palavra muito falada e pouco escrita – tem disso ainda, a estratégia e o emprego das palavras na linguagem escrita e na linguagem verbal. Nem tudo que se fala é digno de ser escrito. Vai entender!
Para encerrar esse episódio do vernáculo impuro, puta, quando grafada no masculino, perde muito sua força. Em Portugal serve para coloquialmente descrever um menino, um rapazinho. E na sintaxe paulistana, aquela palavrinha dissílaba no feminino ganha outro significado. Senão, vejamos: “Um puta projeto, meu” quer expressar “um grande, um senhor projeto” e não um projeto de puta.
As palavras são tão fundamentais e complexas que precisam ser estudadas, valorizadas, bem empregadas, com a noção exata de sua significância e não apenas de seu significado. Sim, significância e significado não são sinônimos. Se um professor escreve no quadro: “trabalho de preto”, o que lhe vem de imediato à mente? Qual o sentido usual da expressão, seu emprego mais popular?
Muitos já pensaram “lá vem mimimi”, uma expressão nova de duplo sentido: “bobagem” para quem a emprega, e “ofensa” para quem por ela é atingido. Ora ora nem falamos ainda de preconceito. Sim, a palavra, arrumada em meio a outras, obedecendo a correta grafia, pontuação e sinalização pode ser preconceituosa, não importa há quanto tempo ela seja usual e usada.
Como a língua é dinâmica e reflete o tempo presente, algumas delas precisam ser ressignificadas, ou até mesmo deixarem de ser usadas. A palavra tem poder! Ela salva, mas ela também podem ferir e matar. #Pensa