Aliados ou rivais?
Limitados em nossos egoísmos estaduais, perdemos o bonde da história.
Uma das coisas que essa pandemia reascendeu em meu pensamento foi a necessidade de nos unirmos para uma inserção regional no contexto federal. A Região Norte tem os piores índices de saúde pública do País e, consequentemente, tem sofrido muito mais com a pandemia. Talvez se falássemos regionalmente, e não separadamente por estado, com suas pautas muito particulares, pudéssemos ter mais força e ser melhor sucedidos, inclusive com a união das bancadas no Congresso Nacional. Já falei outras vezes sobre isso.
Sempre me pergunto que razões históricas e até hoje pertinentes nos separam de uma união com o vizinho estado do Pará. Sim, se pensarmos bem, Amazonas e Pará, juntos, representam 33% de todo o território brasileiro. E concentram um inventário de riquezas naturais que despertam interesse internacional. Entre elas, o maior manancial de água doce do planeta, uma das principais riquezas do futuro. Mas sistematicamente, Amazonas e Pará se ignoram e se rivalizam, sem conseguirem protagonizar uma identidade Amazônica.
É engraçado pensar que, apesar de nos identificarmos por muitos rótulos coincidentes – nortistas, amazônicos e caboclos – nossas produções industriais, nossos planos estratégicos de desenvolvimento, nossas políticas ambientais não guardam qualquer relação. Aliás, apesar de contínuos em nossas territorialidades, acumulamos diferenças enormes em quase todos os aspectos. Diferenças, que vistas por um ponto de vista macro e proativo, poderiam representar complementariedade e vantagem competitiva, mas que acabam passando batidas.
Ao mesmo tempo que algumas características e atributos paraenses me despertam atenção e me encantam, sou forçado a admitir a minha ignorância quase que completa em relação aos nossos vizinhos. Acabamos reproduzindo, de alguma forma, a arrogância brasileira de estar na América Latina, com a quase totalidade de países falando espanhol, enquanto temos preferência pelo estudo da língua inglesa. Damos as costas à nossa latinidade. E assim o fazemos em relação Pará – o que eles também devem fazer em relação a nós. E caminhamos lado a lado, separados por um muro virtual de ignorância.
Se temos realidades socioeconômicas distintas, verdades ambientais diversas, expressões culturais marcadamente próprias e únicas, talvez não devêssemos nos preocupar em concorrer tanto um com o outro. Unir-se seria um caminho natural para assumirmos, juntos, o protagonismo amazônico, trazendo junto os demais estados. Mas enquanto nós, únicos estados que temos força para isso, não encaramos esse papel, deixamos que os outros falem por nós, que peçam por nós, e dialogamos com a federação como se fôssemos indigentes, pedintes, enquanto somos imensamente ricos. Dá pra entender?
Limitados em nossos egoísmos estaduais, perdemos o bonde da história. Esse despreparo de união e de liderança nos faz ter que ouvir de terceiros o que devemos fazer para preservar a nossa natureza, ou a aplicar regras em áreas fundamentais, como Educação e Saúde, que não espelham nossas realidades. Não investimos em Ciência e Tecnologia, não pesquisamos nossas riquezas, não exploramos nossos potencial. Não tenho dúvidas de que juntos seríamos mais fortes.
Do pouco que sei sobre o Pará, uma coisa me agrada demais: eles valorizam aquilo que é deles, suas ancestralidades e características, algo que nossa formação econômica em ciclos, como o da borracha, e o da Zona Franca, nos tirou. Está na hora de nos aproximarmos! Enquanto estamos de costas um para outro, eles, de fora, destroem nosso meio ambiente, e nos deixam morrer à mingua, trocando nossas dignidades por espelhos e contas que eles insistem em dizer que são riquezas. Até quando? #Pensa