Manaus seg, 26 out
A Crítica
Opinião

Boa para se?

Pandemia expõe e amplia desigualdades em Manaus

Publicado em 13/02/2021 às 12h10 · Atualizado em 24/03/2022 às 22h58
Boa para se?

A semana passou agitada, assombrada pela profecia de uma possível terceira onda da Covid-19. Pensar nisso provoca uma enorme angústia. Por isso, me restringi a ler o estritamente necessário e procurei passear por outros assuntos. Foi então que duas pesquisas recém publicadas me chamaram enorme atenção. A primeira, do IBGE, deu conta que o volume de vendas do comércio varejista no Amazonas cresceu 7,7% em 2017, 4,4% em 2018, 7,9% em 2019 e, para a minha surpresa, teve uma alta de 7,3% em 2020. Ou seja, vendemos 7,3% a mais do que vendemos em 2019, em pleno ano de pandemia e com todas as restrições que foram impostas ao longo do ano.

O balanço de vendas do comércio de varejo no Brasil fechou no azul com alta de 1,2%. O crescimento do Estado foi o sêxtuplo e registrou o terceiro melhor desempenho entre as unidades da federação! Qual o segredo? Houve tanta reclamação por parte dos empresários. Só para se encerrar esse assunto e fechar a conta, o comércio varejista ampliado amazonense, que inclui as atividades de veículos, motos, partes e peças e de material de construção, fechou o ano com alta de 7,5%, também em seu quarto ano consecutivo de crescimento.

Na contramão desse fôlego varejista, a publicação do Índice de Desafios da Gestão Municipal, o IDGM, ranqueando as 100 maiores cidades brasileiras, coloca Manaus numa posição bastante desconfortável. O estudo, feito pela consultoria Macroplan, faz uso de 15 indicadores de educação, saúde, segurança e saneamento básico para classificar os municípios. Dentre as 100, Manaus ocupa a 88ª colocação, tendo caído em uma década 17 posições e em um ano duas. Se considerarmos apenas as capitais brasileiras, sem as demais cidades, Manaus é a 22ª entre 26, superando apenas Maceió, Porto Velho, Belém e Macapá, a última colocada. 

Se o crescimento do comércio de varejo fala de circulação de capital e poder de consumo, enquanto o IDGM fala de emprego e qualidade de vida, de cidades boas para se viver, precisamos cruzar os dados e entender o que eles querem dizer. Em tese, Manaus é uma cidade rica – imaginem qual seria o tamanho do crescimento varejista não fossem as restrições impostas pela pandemia: quanto acima de 7,3%? Ao mesmo tempo, parece ser uma riqueza improdutiva, não distribuída com equidade, já que ela não se transforma em qualidade de vida e oportunidades de trabalho e renda à população.

Vale lembrar que o IBGE também publicou na última semana a pesquisa de desempenho industrial de 2020, com o uma queda acumulada de 5,5% para a indústria amazonense em relação a 2019, superando a queda nacional para o ano, que foi de 4,5%. E que as últimas pesquisas daquele Instituto sobre emprego traziam Manaus e região metropolitana sempre no top 5 do desemprego no país.

Numa tradução bem literal de todas as publicações recentes, temos Manaus, que concentra metade da população do Estado, como uma cidade boa para se ganhar dinheiro, mas ruim para se viver, considerando qualidade de vida e emprego. Parece dicotômico: como pode ser boa para se ganhar dinheiro e ruim de emprego? Talvez devêssemos dizer que ela é boa para POUCOS ganharem MUITO dinheiro, que não se transforma em benefício social à grande maioria dos cidadãos. Alguém pensa, planeja ou estuda para transformar essa situação? Ou apenas se perpetuam as práticas ancestrais? #Pensa