Manaus sex, 23 out
A Crítica
Opinião

De volta à realidade

Publicado em 10/09/2021 às 10h46 · Atualizado em 13/03/2022 às 19h21
De volta à realidade

Nos últimos dias, é como se duas realidades distintas se instalassem no Brasil: a realidade de fato, em que o País luta contra crises sobrepostas (sanitária, econômica, hídrica etc), e uma realidade paralela, onde tais crises têm menor importância. Nessa realidade fictícia, chegou a ser decretado estado de sítio no País, para comoção de centenas de patriotas. Milhares de pessoas em diversas capitais entrarem em estado de êxtase, aguardando o desfecho triunfal, quando o Poder Executivo sobrepujaria os demais, removendo os obstáculos que o estariam impedindo de gerir o País adequadamente. Movidos por esse êxtase, caminhoneiros fecharam as estradas em 15 estados para pressionar os demais poderes e manifestar apoio ao presidente da República. 

O problema é que os atos praticados por quem vive nesse mundo de fantasia têm impactos diretos no mundo real, e a realidade sempre se impõe. A ação dos caminhoneiros, que não faz o menor sentido, pois defende pautas impossíveis como a destituição de magistrados do STF (o que só pode ser feito por meio de impeachment), começou a pressionar a economia, podendo causar desabastecimento, alta de preços e mais instabilidade. Eles tiveram que ser chamados à realidade pelo próprio presidente, alertado por auxiliares que o movimento poderia sair do controle, causando sérios danos a todo o País. Ao mesmo tempo, as instituições da República suportaram a forte pressão, demonstrando que nossa ainda jovem democracia já alcança elevado grau de solidez.

O êxtase de muitos que foram às ruas no dia 7 de setembro foi interrompido na noite de quarta-feira, quando, por meio de um áudio, o presidente pediu a desmobilização dos caminhoneiros, causando estranheza em muitos, e acabou de vez na tarde de ontem, com a nota de Bolsonaro à Nação, em que o mandatário baixou o tom e recuou, para decepção dos que já se imaginavam em estado de sítio.

O que a sociedade brasileira espera (embora sem muita esperança) é que o aceno de Bolsonaro aos demais poderes se converta em pacificação efetiva e que o governo abandone de vez as bravatas golpistas e passe a se dedicar aos problemas do mundo real, que exigem atenção mais do que imediata, como o elevado desemprego, inflação em disparada, e as crises sanitária e hidrica.

Opinião

De Volta à Realidade

Apesar dos cenários aterradores, nunca se viu tanta gente defendendo medidas nocivas ao meio ambiente e demonizando os ambientalistas.

Publicado em 11/07/2020 às 14h55 · Atualizado em 24/03/2022 às 23h04
De Volta à Realidade

Com o recuo na pandemia de covid-19 em Manaus, começamos a perceber outros assuntos importantes em nossa realidade diária. Não é hora de relaxar nas medidas sanitárias e de isolamento preventivo, não se trata disso; mas de voltar a atenção a outras tragédias que temos vivido e que não podem virar paisagem. Bom exemplo é a questão ambiental, que ocupou destaque na mídia local, nacional e internacional durante toda a semana que passou. Só não sei se nos tocamos quanto à gravidade do assunto.

É sabido de toda a polêmica de desmatamento da Amazônia em 2019, um dos piores anos, com imagens comprovadas de satélite, etc e tal. E não adianta ser negacionista: os dados saltavam aos olhos. Mas infelizmente 2020 está pior. Batemos um novo recorde de alertas de desmatamento em junho deste ano! De janeiro a junho de 2020 a devastação cresceu 25% em relação ao ano passado. Nos últimos 11 meses, de agosto de 2019 a junho de 2020, a destruição da floresta avançou 64% em relação ao período de agosto de 2018 a junho de 2019.

Afirmar que existe alguma coisa de muito errada é chover no molhado. Sim, existe. Nunca se viu tanta pressão para a liberação de mineradoras e de garimpos na Amazônia. E eu repito a pergunta que fiz na semana passada: alguém conhece algum lugar que tenha enriquecido sua população com garimpo? Não bastou Serra Pelada? Em termos de grandes mineradoras, não basta o que vimos em Mariana e em Brumadinho? Não foi suficiente o vazamento em barragem de rejeitos da empresa Hydro Alunorte, em Barcarena, no Pará, provocando contaminação e doenças? Parece que não!

Apesar dos cenários aterradores – e se você os desconhece, informe-se via Google – nunca se viu tanta gente defendendo medidas nocivas ao meio ambiente e demonizando os ambientalistas. Não acredito que seja ignorância, apenas. São muitas coisas ruins reunidas que provocam esse levante contra tudo aquilo que fala em conservação da natureza. Insiste-se na defesa de interesses econômicos de muito poucos, em detrimento ao interesse coletivo. Parece que queremos começar a inverter papéis, tornando mocinhos em bandidos e vilões em heróis, para justificar o injustificável.

Enquanto segue a sanha destruidora, nossas cidades e nossos cidadãos detém os piores índices ambientais e de qualidade de vida, em saneamento, em arborização, em mobilidade urbana, em poluição de cursos dágua em área urbana. É a famosa casa de ferreiro: as capitais da Amazônia fazem exatamente tudo aquilo que está em desacordo com o bom trato do meio ambiente e da qualidade de vida da população. E pelos números e índices, nossa casa de ferreiro não tem espeto de pau: aqui o espeto é de papel.

E você deve estar se perguntando o que pode fazer em relação a isso. A primeira coisa, sem dúvida, é se comprometer, é questionar, é falar a respeito. E buscar sintonia em suas ações com a conservação do meio ambiente. Afinal, quem é você? Aquele que considera o curupira um mocinho, ou um bandido? A quem ou o que você defende? #Pensa