Divã na Quarentena
Derrubem a Zona Franca e as muralhas estarão no chão para a entrada de todo tipo de saque à natureza: exploração de madeira, mineração em grande escala e garimpo
Amanhã, segunda-feira, se inicia a última etapa do processo de reabertura social após o isolamento imposto pela pandemia de covid-19 no Amazonas. Estabelecimentos de ensino privado, cinemas e outras atividades que não foram incluídas em etapas anteriores voltarão à nova normalidade. Só ficarão de fora os bares, as casas de show e eventos, bem como as instituições públicas de ensino, com data ainda a definir. Iniciamos o retorno gradual à rotina há mais de um mês e desde então não tivemos aumento significativo de casos de contágio, nem de mortes.
A sensação de alívio é enorme! Dá até medo de achar que tudo isso seja apenas temporário. Sofremos muito; de um lado pelo adoecimento e até pela perda de pessoas nossas; de outro pela superexposição que sofremos na mídia nacional. Parece que só aqui é que a pandemia era trágica e que concentrávamos todas as agruras nacionais. O Pará atualmente tem quase que o dobro de mortes daqui, São Paulo e Rio em situações limite, estados do Sul e do Centro-Oeste voltando atrás e impondo novamente o isolamento social. Mas ninguém foi mais exposto que nós, grrr!. Acho que me tornei um pouco bairrista demais nessa quarentena.
Não somos valorizados e não nos damos valor! De nada adianta todo esse interesse internacional sobre a Amazônia, ou o reconhecimento da riqueza de nossos recursos naturais. Não nos é dada a devida atenção; não temos voz ativa nos grandes fóruns nacionais e ainda aplaudimos quem fala em favor de atividades que contribuem com a devastação da Amazônia. Concordamos com os ataques à ZFM e não vemos que abrimos espaço para o lobby das mineradoras, que já estão aqui ao lado, destruindo o Pará, e só não entraram aqui porque temos uma atividade econômica compensatória.
Derrubem a Zona Franca e as muralhas estarão no chão para a entrada de todo tipo de saque à natureza: exploração de madeira, mineração em grande escala e garimpo que, aliás, já chegou faz tempo e só ganha força, com expressivos estragos, tanto no Alto Rio Negro, quanto no Baixo Solimões. E alguém conhece algum lugar que tenha enriquecido sua população com garimpo?! Isso sem falar no agronegócio, querendo derrubar grandes áreas de floresta, para fazer pasto. Não temos consciência das nossas riquezas, nem de quem são nossos verdadeiros inimigos. E não construímos alternativas.
No fim, não é de se estranhar, por exemplo, que as duas maiores sedes de poder no Amazonas estejam na frente de um curso d’água fétido, na Compensa. Sim, tanto a Prefeitura de Manaus, quanto o Governo do Estado, estão na Av. Brasil, em frente a um “bosteiro” a céu aberto. E ninguém faz nada para sanear aquele igarapé, não se ouve falar nem de projeto, nem sobre a vontade de fazê-lo. Não nos preocupamos com as coisas rotineiras, que interferem em nossas vidas. O embelezamento urbano parece desnecessário. Nós não ligamos, achamos tudo normal, até mesmo a destruição daquilo que nos resta! #Pensa