Lições de meu pai
Não sei em que momento meu pai parou de escrever, ou deixou de colecionar seus escritos, mas ele realmente se expressava de uma maneira muito particular.
Dia dos Pais em meio à pandemia. E tudo acaba sendo tão diferente, ou pelo menos deveria ser. Meu pai partiu há cinco anos e ele ainda se faz presente, diariamente, em minha vida, de muitas maneiras. Sempre fomos próximos e presentes um na vida do outro. Entretanto, durante o velório dele me surpreendi com a quantidade de pessoas antigas que conviveram com ele e elogiaram sua escrita. “Seu pai escrevia muitíssimo bem” foi uma frase corriqueira.
Não sei em que momento meu pai parou de escrever, ou deixou de colecionar seus escritos, mas ele realmente se expressava de uma maneira muito particular. Nunca publicou nada, nunca teve vínculo com nenhum veículo de comunicação. Hoje quero homenageá-lo e trazer um dos textos dele que encontrei, que deve ter a minha idade aproximada. E que tenho certeza que ele estaria praticando se ainda estivesse nesse plano. Pai, obrigado por tudo.
“SENHOR,
Vós sabeis, melhor do que eu, que estou envelhecendo e um dia ficarei velho.
Não permitais que eu me torne tagarela e, principalmente, que adquira o hábito fatal de pensar que devo dizer alguma coisa sobre todo o assunto em todas as ocasiões.
Livrai-me de querer, a todo transe, tentar resolver os problemas de todo o mundo.
Conservai minha mente livre da enumeração de intermináveis pormenores: dai-me asas para ir diretamente ao assunto.
Imploro delicadeza suficiente para ouvir as narrativas dos males alheios – ajudai-me a suportá-los com paciência.
Mas selai meus lábios quanto a meus próprios achaques e dores: eles estão aumentando e o meu prazer de ensaiá-los se torna mais doce à medida que os anos vão passando.
Ensinai-me a maravilhosa lição de que às vezes pode ser que eu esteja errado.
Conservai-me razoavelmente meigo; não quero ser um santo – alguns são tão difíceis de aturar – mas um velho amargurado é uma das obras-primas do diabo.
Fazei-me ponderado, mas não carrancudo; prestativo, mas não mandão. Com as minhas vastas reservas de sabedoria será uma pena não as usar todas: mas Vós sabeis, SENHOR, que no fim quero ter alguns amigos… Pedro Câmara”.