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Cotidiano
Verbas da Saúde

Patrimônio de chefe da ‘Maus Caminhos’ aumentou 35 vezes em quatro anos

Em 2011, o médico Mouhamad Moustafa possuía R$ 400 mil. Até 2015, patrimônio chegou a R$ 14, 1 milhões. Outros presos também tiveram crescimento patriomonial 26/09/2016 às 18:24 - Atualizado em 26/09/2016 às 19:18
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O dinheiro era usado para adquirir bens de alto padrão, como avião a jato, veículos importados e imóveis caros (Foto: Aguilar Abecassis)
Vinicius Leal Manaus (AM)

O médico e empresário Mouhamad Moustafa aumentou em 35 vezes o patrimônio dele durante quatro anos em que, segundo a Polícia Federal, comandou um esquema de desvio de verbas da Saúde no Amazonas. Em 2011, o médico, apontado como chefe da organização criminosa – desmantelada na semana passada durante a Operação Maus Caminhos – possuía R$ 400 mil de patrimônio, e em 2015 o número chegou a R$ 14.111.779,72. O dinheiro era usado para adquirir bens de alto padrão, como avião a jato, veículos importados e imóveis caros.

As informações constam na decisão da juíza Ana Paula Serizawa Silva Podedworny, da 4ª Vara Federal do Amazonas, a que a reportagem teve acesso. Segundo a juíza, a evolução patrimonial de Mouhamad, e também das empresas envolvidas, configuram forte indício do esquema de desvio de dinheiro público da Saúde, cerca de R$ 112 milhões no total. Segundo a Justiça, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, Mouhamad exercia o controle das empresas Salvare, Total Saúde e Simea, geridas pelo Instituto Novos Caminhos para o desvio de dinheiro público.

Na ocasião em que a operação foi deflagrada, o superintendente da Polícia Federal, delegado Marcelo Rezende, disse que o dinheiro desviado da saúde era usado para "ostentar". “Fica muito claro que o grupo ostentava elevado padrão de luxo muito acima da realidade de qualquer brasileiro e brasileira. Quase que algo cinematográfico, hollywoodiano”, afirmou ele. 

Outro envolvido na “Maus Caminhos” que também aumentou patrimônio foi Priscila Marcolino Coutinho, responsável financeira das empresas investigadas. Quando funcionária do Banco do Brasil, Priscila recebia cerca de R$ 2,5 mil de salário, porém adquiriu imóvel de R$ 1 milhão. Depois, que se associou a Mouhamad, passou a receber R$ 80 mil de salário e adquirir imóvel de R$ 2,5 milhões.

Conforme a decisão, outro participante ativo do esquema da “Maus Caminhos” foi Rodrigo Fernandes Aroli, gestor administrativo do Instituto Novos Caminhos e sócio da ABR Brazil Serviços Administrativos. Entre 2014 e 2016, ele recebeu R$ 569 mil oriundos da Salvare, indicando a importância dele no grupo criminoso e a inexistência de separação entre as empresas “sujas” no desvio de verbas.

O despacho da juíza diz que diretora da UPA e da maternidade do município de Tabatinga, no interior do Amazonas, Pauline Azevedo Sá Campos, conseguiu desviar R$ 1.587.024,37 de um contrato entre o Instituto Novos Caminhos e a empresa Alessandro Viritato Pacheco EPP para serviços “prestados”. Já Alessandro Viritato Pacheco, proprietário da empresa de mesmo, fornecia serviços ao INC. Ele sacou R$ 11.027.164,35, o que, segundo a decisão, configurou indício de desvio e lavagem de dinheiro.

Ao todo, 19 pessoas estavam envolvidas, segundo a Justiça Federal. Foram presos preventivamente Mouhamad Moustafa, Jennifer Naiyara Yochabel Rufino Correa da Silva, Priscila Marcolino Coutinho, Euler de Paula Baumgratz, Rodrigo Fernandes Aroli, Pauline Azevedo Sá Campos, Pablo Gnutzmann Pereira, Marcia Alessandra Silva do Nascimento, Alessandro Viriato Pacheco, Davi de Azevedo Flores, Erhard Lange, Gilberto de Souza Aguiar e Antônio Melo Marques. Foram presos temporariamente, durante cinco dias, Bruna Marly Alfaia Moura, Gilmar Fernandes Correa, Dilson Maciel de Jesus e Libia Amorim da Silva. Já Keytiane Evangelista da Almeida e Marcos Aurelio Santos Araújo foram conduzidos para prestar esclarecimentos.

‘Maus Caminhos’

A Operação Maus Caminhos foi deflagrada no dia 20 de setembro pelo Ministério da Transparência, pela Controladoria-Geral da União (CGU), pela Polícia Federal, Ministério Público Federal e a Receita Federal com objetivo de desarticular uma organização criminosa que desviava recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) no Amazonas.

Conforme as investigações, havia o envolvimento de agentes públicos e empresários nas fraudes. A suspeita de existência do esquema surgiu após análise da CGU sobre concentração atípica de repasses do Fundo Estadual de Saúde à organização social Instituto Novos Caminhos (INC). De abril de 2014 a dezembro de 2015, a entidade recebeu mais de R$ 276 milhões para administrar duas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), em Manaus e Tabatinga, e um centro de reabilitação para dependentes químicos, no município de Rio Preto da Eva.

De acordo com a PF, a organização criminosa utilizava a INC para fugir dos procedimentos licitatórios regulares e permitir a contratação direta de empresas prestadoras de serviços de saúde. Em novembro de 2014, o Ministério Público do Estado (MPE-AM) abriu uma investigação para contrato de R$ 80 milhões do INC com a Secretaria de Estado da Saúde (Susam).

Desdobramentos do trabalho resultaram em fiscalização, entre maio e agosto deste ano, que verificou que os principais fornecedores do INC, empresas administradas por um mesmo grupo de pessoas e ligadas ao esquema criminoso, receberam pagamentos por serviços não prestados, indevidos e superfaturados.

De acordo com a PF, as investigações também demonstraram que os serviços, na prática, eram praticados com valores muito superiores aos de mercado, existindo casos de pagamentos em duplicidade e de serviços pagos que sequer terem sido prestados. 

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