Sábado, 21 de Setembro de 2019
Exclusivo

Formiga fala sobre despedida da seleção e futuro no futebol

A maior volante da história da Seleção Brasileira se despede do futebol em Manaus. Antes disso, ela atendeu a nossa equipe nesta entrevista exclusiva



Formiga.JPG A jogadora pensa em se despedir da seleção no próximo domingo (18) (Foto: Evandro Seixas)
12/12/2016 às 14:31

A primeira bola era feita da cabeça de bonecas que a pequena  Miraíldes Maciel Mota ganhava de presente. Mas ela não se contentava com as pelotas improvisadas. Queria jogar. O futebol estava no sangue. Na rua, ela jogava com os meninos. Chegou a apanhar dos dois irmãos mais velhos, que não gostavam de vê-la jogar. A mãe, Dona Celeste,  via o preconceito dos vizinhos que chamavam a menina que queria jogar de ‘mulher-macho’.

Nos campos, a baiana de 1,60 ganhou o apelido de Formiga, por ser uma verdadeira operária em campo. E o apelido ganhou o mundo e, no Brasil, virou sinônimo de garra no futebol feminino. A pequena Formiga ganhou os campos do planeta, jogou seis Olímpiadas (1996, 2000, 2004, 2008 e 2012 e 2016). É  única que atuou em todas as edições desde que o futebol feminino foi inserido no programa Olímpico. Seis também foi o número de Copas do Mundo que ela disputou (1995, 1999, 2003, 2007, 2011 e 2015). A história dela se confunde com a da modalidade no Brasil.

Entre os títulos com a camisa canarinho, Formiga já conquistou três medalhas de ouro nos Jogos Pan-Americanos (2003, 2007 e 2015), duas pratas nas Olimpíadas (2004 e 2008) e o título do Sul-Americano de 2010.

Nos clubes, a lista de títulos aumenta. Recentemente, com a camisa do São José Esporte Clube (SP), ela foi campeã mundial de clubes em 2014 e tricampeã da Libertadores (2011, 2013 e 2014).

Mas a linda história de Formiga e a camisa da Seleção Brasileira, tem dia  marcado para terminar: 18 de dezembro. Foi nesse dia que ela escolheu fazer o último jogo com a camisa canarinho. As companheiras de Seleção insistem para que ela repense. Mas ela é irredutível: “Se minha mãe não conseguiu, elas também não vão”. Mais do que o carinho, o pedido vem motivado pela importância que a volante  tem para o plantel da Seleção. Experiente, ela ainda consegue jogar em alto nível aos 38 anos. E mesmo com toda a idade e experiência, não deixa de se dedicar nos treinos. “Nunca fiz corpo mole”, garante.

No primeiro jogo em Manaus pela Copa Caixa de Seleções, ela foi uma das mais ovacionadas pela torcida. Um chute da intermediária do campo e que passou perto do gol, fez a torcida ir ao delírio. Formiga está no coração dos brasileiros não apenas pela habilidade, mas pela persistência que representa a luta de toda a menina que um dia sonha em ser jogadora.

Com a despedida próxima, ela diz que está tranquila. Afinal, ela deixará de atuar apenas nas quatro linhas. Em entrevista exclusiva ao CRAQUE, antes do confronto contra a Rússia, neste domingo na Arena da Amazônia, Formiga contou que pretende sim continuar no futebol auxiliando em algum clube, ou até mesmo na Seleção Brasileira. “Se não me envolver, acaba em depressão”, disse. Mesmo aposentada, a vontade da jogadora é ver meninas tendo oportunidades de jogarem e que o futebol feminino ganhe cada vez mais respeito, espaço e prestígio no País do futebol.

 

 

 

 

Como fica o coração quando vem à cabeça que essa é a sua despedida da Seleção Brasileira? É uma despedida mesmo? Quando e por que você decidiu se aposentar da Seleção?

A cabeça tá tranquila. Foi uma decisão pensada há muito tempo, então não foi tomada da noite por dia. O coração a cada dia que se aproxima da despedida, vai ficando mais acelerado, mas como a cabeça está tranquila acho que no último jogo venha ficar um pouco pertubada, mas estou preparada para essa despedida.

Você jogou seis Copas do Mundo e seis Olimpíadas. Qual a lembrança mais marcante que você tem dessas competições?

Todas tem um momento marcante, mas acredito que a primeira prata (em Atenas 2004) e o vice mundial (2007). Acredito que foi o que mais marcou e que vai ficar realmente na história da minha carreira.

Quando parar de jogar pensa em seguir trabalhando com o futebol?

Sem dúvida! Não tem como parar de jogar e se afastar do que você fez ao longo dos anos. É preciso estar envolvida porque acaba  que se não me envolver, acaba em depressão. Sem dúvida nenhuma eu quero estar no meio do futebol e se puder estar até mesmo na Seleção, na base e poder contribuir com isso aí.

Você tem 38 anos e esbanja disposição. Qual o segredo para jogar tanto tempo e em alto nível?

O segredo é a dedicação, a maneira que você cuida do corpo e a vontade de estar em campo. Mesmo com a idade que eu tenho, eu nunca fui de fazer corpo mole em meus treinamentos e acredito que seja isso tambem.. e o sonho de ver essa modalidade enfim respeitada, de sermos tratadas como profissionais. Na minha vida eu nunca desisti de nada, sempre trabalhei e sempre procurei fazer tudo bem feito para poder dar meu 100% nos meus treinamentos. Por isso acredito que hoje eu consiga jogar o que eu jogo.

Nas Olimpíadas de 2016, vocês ganharam a simpatia da torcida brasileira que empurrou a Seleção. O ouro não veio, mas você acha que a visão do brasileiro em relação ao futebol feminino mudou?

Sem dúvida que mudou. Esse foi algo de positivo da Olimpíada ser aqui: a sociedade, esse povo mais próximo e ver o nosso trabalho porque quando a gente está mais longe, pelo o que se passa pela TV,  as pessoas não têm uma certeza da nossa dedicação, da nossa garra em campo, mas é claro que o que a gente quer atingir não é só o povo, mas os que comandam os futebol para que as coisas no futebol feminino venha mudar de uma vez.

A Seleção passou por uma renovação. Muitas jogadoras novas chegaram. Como é essa relação com as mais novas e que conselho você dá para as meninas que estão começando?

A relação é boa. Não existe diferença de quem chegou agora e quem já estava e o conselho que eu dou é que cheguem com vontade e dêem o máximo porque não é só uma ou duas que estão na luta pelo futebol feminino. Que elas fiquem à vontade, mostre o talento  delas e estejam unidas.

Como você vê a evolução do futebol feminino no Brasil nesses 20 anos? Você tem consciência da importância que você tem para essa história, como referência para as meninas que estão começando?

A evolução eu vejo que ela está bastante lenta visto que em outras seleções, que estavam bem atrás da Seleção Brasileira,  hoje estão à frente, mas eu acredito que a gente pode acelerar isso um pouco mais para que possa encostar nas outras. Vejo bem pouco a importância que eu tenho pro futebol feminino pelo que eu venho fazendo até hoje e espero que isso realmente venha ajudar a modalidade e não só o meu lado pessoal. Todos sabem a vontade que eu tenho de mesmo que esteja parando agora, de estar ajudando. E que essa minha história sirva para outras meninas que não desistam dos seu sonhos. Continuem lutando e tenham o apoio da família porque quando eu comecei a dificuldade era bem maior de se jogar futebol no nosso País e hoje tem a facilidade, tem essa visibilidade e espero que realmente as coisas venham a melhorar bem mais rápido do que está.

A Emily Lima falou que tá tentando convencer você a continuar por mais algum tempo? Como são essas conversas? Existe a chance de você adiar a aposentadoria?

Tem bastante gente pedindo para que eu não deixe a Seleção, mas como eu falei, é uma decisão tomada e posso te dizer que se a minha mãe não conseguiu, as (pessoas) que estão aqui, a própria treinadora também (não conseguirão).  Digo para você que não há chance alguma de volta na minha decisão, mas espero estar na Seleção, só que fora das quatro linhas.


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.