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Esportes
Sem memória

Prometido há tempos, museu do futebol amazonense cai no esquecimento

Desde a inauguração da Arena da Amazônia várias promessas foram feitas para preservar a memória do futebol amazonense. Até agora, absolutamente nada saiu do papel 03/05/2017 às 11:09 - Atualizado em 03/05/2017 às 14:16
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Acervo do patriarca Flaviano Limongi - que conta com uma camisa da seleção brasileira tricampeã do mundo no México e uma camisa do Santos, ambas usadas por Pelé - , poderiam estar em visitação pública
Denir Simplício Manaus (AM)

Já diz o ditado: ‘Um povo sem memória é um povo sem história’. E a história do esporte amazonense parece estar guardada na prateleira empoeirada do esquecimento. Desde os tempos áureos do antigo estádio Vivaldo Lima, as lembranças do desporto Baré procuram em vão um lugar para chamar de seu e assim passar de geração pra geração as memórias mais gloriosas do nosso esporte.

Anunciado com pompa e circunstância pelo Governo do Estado, logo após a Copa do Mundo de 2014, enfim, o Amazonas ganharia o seu tão aguardado museu do esporte. No entanto, passados quase três anos depois do anúncio, as memórias do nosso desporto continuam a vagar sem rumo e perigam ser esquecidas.

De “Acervo Flaviano Limongi” passando por “Calçada da Fama do Esporte” o que se espera atualmente é que a Secretaria de Estado de Juventude Esporte e Lazer (Sejel) consiga dar um destino digno ao material. A última aposta, anunciada em fevereiro do ano passado, pela gestão atual era a criação de um “Museu Olímpico”, obra que deveria ser aberta ao público em outubro de 2016, ano dos Jogos Olímpicos, o que não aconteceu.

Pegadas ao vento

Assim que assumiu a Sejel, o secretário Fabrício Lima chegou a anunciar primeiramente a “Calçada da Fama do Esporte”, em parceria com a Foot Fame – empresa que implantou o mesmo projeto no estádio Castelão, em Fortaleza -, numa ação que acabou de forma decepcionante para os “homenageados”.

A ideia consistia em eternizar as pegadas de ícones do esporte local, como Amadeu Teixeira, Aderbal Lana e irmãos Piola, com ídolos nacionalmente conhecidos como Denilson, Bebeto e Zico, num espaço que abrigaria, além das marcas dos pés das celebridades esportivas, um museu do esporte Baré. Vale ressaltar que, de acordo com a empresa, a “Calçada da Fama” seria implantada na Arena sem custos para os cofres públicos.

Sejel Lenda do futebol baré, Amadeu Teixeira deixou seus pés na “Calçada da Fama” (Foto: Mauro Neto/Sejel)

A ação levou grande público à Arena da Amazônia, em fevereiro de 2016, durante o jogo beneficente Amigos do José Aldo x Amigos do Antônio Pizzonia. Porém, o que aconteceu beirou a humilhação aos envolvidos.

“A gente foi convidado. Eu, Piola (Antônio), seu Amadeu (Teixeira) e outras pessoas. Marcaram com a gente lá, nós fomos e nada aconteceu. Ninguém falou nada também e a gente ficou lá que nem bobo”, relembra o técnico Aderbal Lana fazendo um desabafo. “Foi uma situação um pouco desagradável, a gente ficou sem chão, porque nada foi falado. A gente simplesmente foi convidado e fizemos tudo o possível pra chegar lá no horário e nada foi comunicado pra gente e isso passou... caiu ao vento”, disse o treinador, que foi um dos 17 nomes que seriam homenageados no evento.

E as relíquias...

Responsável em guardar as memórias do pai, o primeiro presidente da Federação Amazonense de Futebol (FAF), o saudoso Flaviano Limongi, Nádia Limongi relembra do legado do patriarca da família Limongi. A detentora do acervo recorda da mãe, dona Santa Limongi, que esteve presente no lançamento do Memorial, em 2014, mas que faleceu no início deste ano sem ver realizado o sonho da família em ver as memórias de seu Flaviano em local adequado.

“Fico muito emocionada e ao mesmo tempo triste. Lembro que minha mãe, que agora infelizmente é falecida, foi convidada e participou do lançamento de um museu. Nós ficamos muito felizes porque era uma forma de nós podermos resgatar tudo o que ele fez e que o legado dele não fosse em vão”, concluiu a filha de Limongi.

Além das camisas de Pelé, o acervo de Flaviano Limongi contém inúmeras medalhas, placas, fotos e troféus colecionados por anos pelo jornalista. Vale ressaltar que, na época do lançamento do Memorial, representantes dos clubes do Amazonas foram convidados a doar raridades de seus acervos particulares para a criação do museu.

Acervo do patriarca Flaviano Limongi - que conta com uma camisa da seleção brasileira tricampeã do mundo no México e uma camisa do Santos, ambas usadas por Pelé - , poderiam estar em visitação pública (Foto: Aguilar Abecassis)

A diretoria do Princesa do Solimões, por exemplo doou o troféu do primeiro turno do Barezão de 2013, assim como uma das bolas usadas na decisão contra o Nacional, e certificado de campeão. Já o hoje rebaixado São Raimundo, representando na época por Mozart Santos, cedeu a placa de inauguração do antigo estádio da Colina e até uma das três taças da Copa Norte. Título no qual o clube se orgulha em ser chamado de Rei do Norte.

Questionado onde se encontram tais relíquias – que foram entregues antes de sua gestão à frente da Sejel -, o secretário Fabrício Lima mostrou surpresa e disse que vai procurar pelo material. “Vou ser bem honesto, não sabia disso. Vou procurar eles (representantes dos clubes) e ver pra quem entregaram e localizar”, explicou Fabrício se resguardando de possíveis danos com o acervo.

“Ótimo, a gente quer (o material) pro museu! Agora você imagina eu pegar esse material raríssimo e botar numa sala qualquer aqui? Estou me cercando de todos os cuidados porque eu posso abrir o museu lá agora. Amanhã mesmo, porque o espaço está lá e o seu (Roberto) Gesta fornece as peças dele, mas quem me garante que vai ter segurança esse material?”, finalizou.

Sejel vs Foot Fame

Dos esportistas escolhidos para serem eternizados na Calçada da Fama, apenas o fundador do América, Amadeu Teixeira, teve seus pés marcados em sua própria residência. No entanto, como o projeto não avançou a placa com as pegadas de seu Amadeu está em um depósito, em poder na Foot Fame.

Procurado pelo CRAQUE, o titular da Sejel, Fabrício Lima, explicou que o projeto junto a Foot Fame para a implantação da Calçada da Fama não seguiu adiante porque a intenção da empresa em questão era privatizar a Arena da Amazônia e como a proposta não foi aceita pela Sejel, o projeto foi abortado.

Secretário da Sejel, Fabrício Lima fez o anuncio da “Calçada da fama” em fevereiro do ano passado. Projeto não saiu do papel (Foto: Euzivaldo Queiroz)

“A intenção deles (Foot Fame) era privatizar a Arena. Eles não estavam fazendo aquilo de graça. A partir do momento que a privatização não veio, a Calçada da Fama também acabou não acontecendo, porque eles queriam doar a Calçada da Fama, mas por trás tinha o interesse de privatizar a Arena”, ponderou Fabrício.

Por outro lado, o Ângelo Neto, diretor de marketing da Foot Fame - empresa que montou o mesmo projeto na Arena Castelão, em Fortaleza, e no Museu do Santos, em São Paulo afirmou que a intenção jamais foi pela privatização da Arena.

“Acho que ele deve se informar um pouquinho porque nós fizemos dois pedidos: o de fazer a Calçada da Fama com o museu, inicialmente. Depois fazer uma proposta de redução de custos pra privatizar a Arena. Eram propostas diferentes. No caso, a proposta da privatização da Arena não era nossa, mas da LU Arenas, da francesa Lagardère, que gere a Arena Castelão, em Fortaleza, e que vai assumir agora o Maracanã”, afirmou o diretor alegando que Fabrício Lima não respondeu aos ofícios enviados pela Foot Fame.

“Ele está mentindo. Infelizmente é um pouco do que se passa por aí. Inclusive, não foi aceito por parte dele a gestão e nem sequer respondeu o ofício encaminhado. Nós queríamos reduzir custos, como falei anteriormente. Nós tínhamos custos do Castelão, comparando, a Arena da Amazônia custa R$ 700 mil por mês pro estado e a Arena Castelão, que tem jogos toda semana, e tem mais desgaste, inclusive operacional, custa a metade disso”, pontuou.

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