Domingo, 15 de Dezembro de 2019
GENIALIDADE BARÉ

Aos cinco anos, menino prodígio escreve e publica livro científico no AM

Na obra ilustrada, 'Perguntas inteligentes para crianças curiosas', Samuel Maya responde questões clássicas e contemporâneas de astronomia, biologia e física, em menos de cinco linhas



crian_a_B7D87D62-3D99-4D91-9762-0AC5CB56CF02.JPG Foto: Cley Medeiros
16/11/2019 às 08:16

Decorado com heróis de histórias em quadrinhos e com equações de primeiro grau em uma lousa perto da cama, o quarto é o lugar escolhido pelo escritor Samuel Maya para nossa entrevista. Com 5 anos de idade, ele lança no próximo dia 18 de novembro o livro "Perguntas inteligentes para crianças curiosas", durante a feira do livro do Colégio Adalberto Valle, na região central da capital. 

Fã de Einstein e do desenho animado Bob Esponja, o escritor nos recebe no apartamento da família, situado em um bairro de classe média em Manaus, acompanhado da mãe Deyse Maya, do pai André Fabiano, e dos irmãos Mateus, e Mariana - menos o Lucas, que está em Aracaju, no Sergipe. Em um das mãos ele segura uma cópia do livro que será lançado. A família encomendou mil exemplares para o evento. 

Na obra, questões clássicas e contemporâneas de astronomia, biologia, física, por exemplo, são esclarecidas em menos de cinco linhas. Cada página possui um tema diferente e, ao final, surge o convite para ilustrar a capa da obra. O livro de 17 páginas possui versão e-book disponível na plataforma de vendas Kindle da Amazon, a gigante do mercado de lojas online.



Raio criativo

Samuel explica o processo de criação enquanto divide o tempo brincando de 'squash' no tablet que ganhou dos pais durante o último aniversário. Por que o céu é azul? De onde vem a eletricidade? Por que ficamos resfriados? São perguntas levantadas pelo autor, que durante a apresentação do conteúdo interrompe a si mesmo para comentar acerca do nosso constrangedor atraso de uma hora, devido ao trânsito na hora do rush. "Pensei que vocês não vinham mais", indaga, sorrindo.

Uma das perguntas do livro é sobre o que é necessário para formação dos planetas. "Não existem planetas sem poeira e gás," conta Samuel a mim e ao videomaker Matheus Mota, apontando para a ilustração da Via Láctea em uma das páginas do livro. Pergunto se ele encontrou certa dificuldade ao buscar respostas para questões, aparentemente, difíceis. "Eu gosto de responder perguntas assim, acho que todo mundo gosta", justifica com eloquência. 

"Todas as explicações que constam no livro foram elaboradas pelo próprio Samuel”, conta Deyse. "Eram respostas tão completas que até nós mesmos ficamos assustados com tanta riqueza de detalhes", acrescenta. Além de ensinar Samuel em casa, Deyse também é responsável pelas ilustrações do livro, em parceria com o designer Bruno Diogo, amigo da família. "Nosso trabalho foi apenas de criação das ilustrações, digitação, edição e revisão", completa, enfatizando a produção 100% familiar na concretização da obra.

Start meteórico

Começando a ler aos três anos de idade, até o momento em que escrevo essa matéria Samuel fala e escreve no inglês, no idioma russo, grego e, é claro, no português. Além de dominar a linguagem brasileira de sinais (Libras), ele joga xadrez e passa o tempo resolvendo questões de matemática na pequena lousa no lado da cama. 

O criador do aplicativo que Samuel usou para aprender Libras mandou, inclusive, um recado para a família. "Conhecer essa história deixou a gente muito feliz. Ouvimos sobre como é importante o aprendizado de uma segunda língua na infância e o interesse do Samuel pela Libras foi encantador", disse Ronaldo Tenório, CEO da Hand Talk.

Motivado por um Doritos como prêmio, ele logo transforma a lousa em vitrine para demonstrar o feito: o resultado de duas equações de primeiro grau corretas.

"Pode cronometrar o tempo", diz ao iniciar os cálculos. Em menos de 30 segundos ele deu a resposta final e, pulando, exclama com um sonoro: "Mãe, cadê o Doritos?". Samuel aproveita o tempo de espera até receber o prêmio para preencher mais uma estrela de mérito usada por ele como registro de que algo que fez, deu certo.  

Deyse conta que apesar de se destacar na resolução de problemas matemáticos, Samuel enfrenta dificuldades de socialização, e já foi até expulso de uma escola privada.

O escritor foi diagnosticado com altas habilidades e superdotação em laudo emitido com base em avaliação psicopedagógica, por isso, considerada uma criança integrante da educação especial. Atualmente ele cursa o 3º período do ensino infantil, no Colégio Adalberto Vale. Em janeiro de 2020 embarca direto para o ensino fundamental.

A instituição aplica o método de ensino direcionado à socialização para superdotados. Ele conta com acompanhamento profissional por meio do Núcleo de Atividades de Altas Habilidades e Superdotação (NAAHS), gerido pelo Governo do Amazonas.

A neurocientista Angela Machado, da Clínica de Pediatria Rio Negro, em Manaus, explica que "muitas crianças superdotadas são precoces, ou seja, apresentam alguma habilidade específica prematuramente desenvolvida em alguma área do conhecimento, como na música, na matemática, nas artes, na linguagem, nos esportes ou na leitura. Estas crianças progridem mais rápido do que seus pares por demonstrarem maior facilidade em uma área do conhecimento", destaca a especialista. 

Lucas Netto, não

Samuel comanda há dois anos o canal "Meu mundo fora da curva" no Youtube. Nele é publicado vídeos com experimentos químicos e curiosidades científicas. Com audiência fiel entre o público infantil, o canal soma mais de 41 mil visualizações. O vídeo que mais bombou na rede é dele com a irmã, Mariana, realizando o derretimento de um isopor, supervisionado pela mãe. No vídeo ambos explicam como acontecem os efeitos físicos e químicos de transformação.

Pergunto a ele sobre as referências utilizadas para produzir o conteúdo na web e cito o canal de vídeos do humorista Luccas Neto. "Muito sem graça", diz. Os dois canais de Streaming que dividem o topo entre os favoritos, trata sobre fenômenos científicos e curiosidades de aventura, com mais de 2 milhões de seguidores. De acordo com a Webstrong, plataforma que rastreia o público de canais de vídeo na rede, a maior parte do público do “Você Sabia?”, e “Manual do Mundo”, é de crianças na faixa etária de 7 a 12 anos.

"Hoje percebo o quanto essas brincadeiras e atividades paralelas ajudaram ao Samuel a ser uma criança mais feliz e relacionável com outros coleguinhas de sua mesma faixa etária", conta André Fabiano. 
O pai mostra no celular uma das cenas em que Samuel recita o alfabeto russo em um vídeo no grupo de WhatsApp da família. “É como se todos os anos fizéssemos o Enem aqui em casa, com as dúvidas lançadas por ele”, diz Dayse, enquanto posa em uma foto para ilustrar esta reportagem.

"Eu gostei muito da presença de vocês aqui na minha casa. Quando voltam?", finaliza Samuel, acenando ter perdoado nosso atraso para a entrevista.

Repórter

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