A doença que nos silencia
Tem uma doença contagiosa no mundo e não é pandemia.
Desfiles de tanques de guerra em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, no dia 10; afegãos em queda de avião na desesperada tentativa de fuga, após a tomada da capital do Afeganistão pelo grupo Talibã, no dia 16; famintos catam lixo nas lixeiras de Manaus enquanto centenas de pedintes estendem os braços a motoristas e passageiros de carros que trafegam na cidade, todos esses dias.
Parlamentares ensaiam performances tiktokianas em busca alucinada por visibilidade e votos. A cidade real está computadorizada. Nas peças publicitárias, por onde os governos mostram as ações por eles realizadas, é lugar bonito, sem buraco, ruas conservadas, limpas, jardins e áreas verdes compõem o cenário. Tem lâmpadas de Led coloridas e gente sorrindo, jovens, crianças, idosos. Os dilemas da esfera física são solapados para dar lugar à vida computadorizada.
A memória dos tanques em ação no Brasil acompanha os velhos maquinários postos em desfile pela força da sandice de alguns homens sob a exaltação fanática de outros. “Eu tenho a força!” grita o homem-autoridade diante dos fantasmas-fantoches que encontram razões para festejar os feitos da bestialidade humana.
Cabul é um pouco de nós. O jeito Talibã se espalha no mundo e planta o temor como regra de convivência alimentada pelo nacionalismo radical. O Afeganistão invadido por tantas guerras cultivadas pelas potências do mundo, vive mais uma versão aguda do drama de um país de solo rico e gente muito pobre. Os senhores do poder no mundo hoje lavam as mãos quanto ao destino de milhares de afegãos. Que importância tem se algumas centenas deles vagueiam na tentativa de fugir a outro lugar?
Por aqui, os povos indígenas denunciam a prática sistemática de crimes contra as terras indígenas, como tentativa de encurrala-los e retirá-los dessas terras; os indígenas que vivem nos centros urbanos pedem providências contra os ataques feitos nessas comunidades sob o silêncio das autoridades. Parlamentares, agentes governamentais, empresários e missionários se tornaram um tipo de exército em ação permanente de perseguição aos indígenas. Alguns deles usam a evangelização como instrumento de domesticação e cristianização dos indígenas tornando-os escravizados.
Tem uma doença contagiosa no mundo e não é pandemia. O ataque do novo vírus levou à interpretação de que a humanidade, diante do drama longo e profundo, faria mudanças significativas. O frenesi nos centros de compra, o excesso de comida lançada ao lixo, o consumo mais voraz e a pouco importância aos efeitos da violência no Brasil e no mundo demonstram o quanto é eficiente o outro vírus. Por isso, a imagem de um afegão despencando no ar ou de tanques em frente a sede do governo brasileiro são logo esquecidas, da mesma forma que não gera revolta assistir os famintos em peregrinação por farelos deixados dos banquetes de uns poucos. A imagem computadorizada diz mais.